Quem decide pelo idoso quando ele não pode mais decidir?
Com Dra. Vivian Romanholi Coria, médica especialista em geriatria clínica e medicina paliativa · CRM-SP 190228 · Site · Instagram; Jacqueline Clara Garcia, advogada especialista em direito processual civil e em direito notarial e registral · OAB-SP 200634 · Instagram

A médica Dra. Vivian Romanholi Coria e a advogada Jacqueline Clara Garcia explicam o que são as diretivas antecipadas de vontade, como registrá-las, quem decide quando o idoso já não consegue se expressar e por que fazer o documento com antecedência evita conflitos na família.
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Transcrição automática do áudio, com correções pontuais de nomes e termos. O travessão marca a troca de quem fala.
No episódio anterior, falamos sobre cuidar até o fim, mas existe um momento ainda mais difícil, quando o paciente não pode mais decidir e a família precisa fazer isso por ele. Seja bem-vindo ao viver mais, cuidar melhor, o espaço onde o cuidado vai além da doença. Eu sou Andréia Teodoro e hoje vamos falar sobre decisões que ninguém quer tomar, mas que precisam ser
— Estamos hoje com a Dra. Vivian Romanholi Coria. Tá certinho?
— Sim. que já esteve aqui conosco recentemente no nosso podcast e hoje retorna para essa conversa tão
— Obrigada, Andréia.
— Médica formada pela Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, especialista em geriatria clínica e medicina paliativa, possui mestrado em ciências pela USP e atualmente cursa doutorado em bioética na Universidade do Porto em Portugal. Sua atuação é voltada ao cuidado da pessoa idosa, sempre com olhar atento à qualidade de vida, ao conforto e a
— Temos também aqui conosco a Dra. Jacqueline Clara Garcia, é advogada, especialista em direito processual civil, em direito notarial e registral. atua nas áreas de família, sucessões e planejamento patrimonial, com foco na organização e proteção de questões patrimoniais e existenciais, além de trabalhar com a elaboração jurídica de diretivas antecipadas de vontade. Sejam muito bem-vindas.
— Muito obrigada pelo convite. Muito obrigada mais uma vez. Uma honra estar
— Mais uma vez. Dra. Jacqueline, o que são as diretivas antecipadas de vontade? Ó, as diretivas antecipadas de vontade, elas são manifestações que o paciente decide com [roncando] base nos seus valores intrínsecos ligados a questões relacionadas às suas crenças, à suas filosofias de vida, aspectos culturais, religiosos, espirituais, aos tratamentos e cuidados de saúde que ele recusa ou que ele aceita. Essas diretivas, elas são exteriorizadas por meio de um e este documento deve ser escrito de preferência para que você possa ter um acesso e uma comprovação desse documento de uma forma mais fácil. E essas documentaçõ essa, esse documento, ele é realizado pelo paciente de forma livre, sem nenhuma intervenção externa. Então esse paciente quando se autodetermina por meio das diretivas, ele atua sempre de forma livre e consciente dentro daqueles valores que ele entende que devem ser respeitados.
E na prática médica, como isso chega até
— Bom, hoje isso ainda é um desafio para nós, né, Déia? Na verdade, hoje a gente ainda tem muita dificuldade de receber pacientes com diretivas prontas.
— Então isso acaba chegando para nós ainda muito no agudo, né? a pessoa chega numa condição já de doença, numa situação já difícil e ali dentro daquele contexto de tempo curto, a gente acaba tendo que definir certas coisas junto com o paciente quando possível, quando ele é capaz de se expressar ainda, ou atualmente a gente acaba tendo que partir pra família, né, conversar com a família e resgatar os valores daquela pessoa, o que ela tinha como digno no seu, no seu adoecimento. que ela enxergava de forma receptiva em termos de tratamento para que nós possamos fazer pelo paciente o melhor dentro daquilo que é o que ele acredita, né? Então, na prática médica hoje, o nosso maior desafio é fazer com que a pessoa já nos chegue com as diretivas prontas.
Essa é a maior dor do médico, né? É a dor de olhar para aquela situação e falar: "Certo, mas o que esse paciente gostaria para ele,
— Né? Porque tem condutas que não são certas ou erradas, elas são específicas para cada situação e essa situação envolve aquele ser humano como um todo, né, como um ser bio psicossocial e que tem a expressão dos seus valores, dos seus sentimentos e tudo. E experiências de vida também, às vezes até aquilo que a pessoa viveu com os seus pais e fala: "Não, eu não quero isso para mim. Aquilo que o meu pai passou, eu não quero, mas eu não sei o que o pai dela passou".
— Né? Então esse hoje na prática a gente consegue fazer porque tem treino para isso, mas é sempre de uma forma muito em cima da hora. Nosso, o nosso maior desafio é fazer isso acontecer
— Antes. Então esse é um instrumento que rege as vontades do paciente.
— Exato. As diretivas antecipadas de vontade, como o próprio nome já diz, são é tudo aquilo que a pessoa expressa como
— Para os seus tratamentos de saúde, né? Aí não não precisa ser necessariamente só sobre saúde, mas no contexto da medicina eu tô falando de saúde para um futuro processo de adoecimento e de terminalidade de vida. Então tem pessoas, por exemplo, que de cara dizem: "Olha, eu não gostaria de ser no final da minha vida, no final da minha doença". Então, quando a pessoa expressa isso, fica muito mais fácil pra família, na agudização de um quadro não correr pro hospital com aquela pessoa
— E chamar um home care, chamar um, né, uma empresa especializada em dar esses cuidados no domicílio ou profissionais capacitados para isso. Só que e e tem o inverso também, tem aquele paciente que diz assim: "Não, olha, nos meus últimos dias de vida, eu quero estar no hospital cuidado por todos os profissionais que estão lá dentro. Eu não quero dar esse trabalho pra minha família. Isso é o valor da pessoa. Não existe certo ou
— Existe aquilo que é a preferência de cada um. Então, as diretivas antecipadas de vontade é a expressão desses desejos, a manifestação desses desejos. E para que elas tenham validade, o ideal é que elas estejam por escrito e validadas de alguma forma. E hoje as principais formas de validar isso é através do prontuário, né? Quando ele, você expressa isso pro seu médico assistente, pros profissionais de saúde, eles registram isso claramente no prontuário ou mesmo através do cartório, né, que você pode fazer o registro das suas diretivas de uma forma mais
— Como que eu posso dizer, mais
— Publicizada, mais pública, né? mas o que também hoje a gente enxerga como um desafio, porque não é tão simples construir uma diretiva.
— É, é, não é Uhum.
— Em que momento o paciente perde a capacidade de decisão?
— É assim, isso existe técnicas pra gente avaliar o nível de consciência e lucidez do paciente, né? H, então, obviamente, antes de pensar que esse paciente perdeu sua capacidade de decisão, a gente precisa checar isso, né? Nós precisamos utilizar meios, escalas, técnicas para checar a consciência desse paciente e a lucidez na expressão daquilo que ele fala. Então, existem escalas prontas mesmo, validadas internacionalmente, que podem ser aplicadas e que nos dizem muito. Até aconteceu um caso emblemático esses dias, é legal de contar, né? uma colega falou para mim assim: "Ah, não, a a paciente é ótima, assim, ela tá tá super consciente, super orientada". E aí eu apliquei a escala MoCA, que é uma escala, né, de avaliação da cognição,
— E essa paciente apontou sete de 30,
— Então, ela tinha um cognição muito prejudicada, só que quatro pontos desse sete ela obteve no domínio orientação temporoespacial. É,
— Então aquela coisa de no exame físico,
— Seu fulano, que dia é hoje? É onde nós estamos e o paciente dá duas respostas corretas, a gente já fala: "Ah, tá, lúcido". E na verdade não é bem assim. Então, é necessária essa avaliação da parte médica mesmo, por parte de profissionais capacitados a checar a consciência e a lucidez desse paciente e a partir disso a gente progredir com as deliberações. O fato da pessoa estar com a cognição comprometida também não quer dizer que ele está totalmente afastado da possibilidade de ajudar a escolher. Só que tem casos que a gente pede uma assistência dos familiares mais próximos para que ele possa se expressar e com a validação desses familiares que zelam por ele quando existe um comprometimento da cognição,
— Tá? E juridicamente quem passa a decidir por ele? Então, as diretivas elas devem ser realizadas pela pelo próprio paciente. Então, ele é um as diretivas é um ato personalíssimo. Só o paciente é quem pode dirigir, né, e se determinar para colocar todos os seus desejos e e todas as as suas aceitações e recusas de tratamento nas diretivas. né, que é onde vai ser manifestada essa vontade. A partir do momento em que ele não pudesse manifestar mais essa vontade, esse vai ser publicizado para algum familiar ou pro próprio médico, se já consta ali no prontuário ou através do cartório, aonde aquelas diretivas tiverem para que a partir do momento em que ele não tenha mais essa manifestação de vontade e aquelas diretivas passem tem a atuar.
Então, as diretivas é uma voz daquele paciente ao longo daquele tempo em que ele não pode mais se manifestar. O importante é que essas diretivas estejam de uma forma bem clara em todos os aspectos, tanto da vida do paciente, de como aquele paciente entende a vida, quais são os valores importantes para ele, de forma técnica, quais são as condutas, né, médicas que ele quer, que ele aceita ou que ele recusa. Porque quem vai receber essas diretivas é um profissional médico ou um enfermeiro ou qualquer outro profissional da saúde que vai executar. Então, se a redação dessas diretivas não tiver muito clara, objetiva e técnica, vai ficar muito difícil que a execução desse documento se dê conforme aquela vontade do paciente. E aí e a gente vai desrespeitar a vontade dele e vai deixar de se dar dignidade a à aquela pessoa.
— Sim. E se não tem esse documento, essa conversa com o médico, ela descreve verbalmente, o médico descreve no próprio prontuário, isso também é
— Sim. A resolução do CFM, que é de 2012, ela prevê três formas de você formalizar essas diretivas. Ah,
— Você pode fazer por meio do prontuário médico. Então, o médico ouve o paciente, colhe a as diretivas e registra no prontuário, ou senão de forma particular, a pessoa escreve todas as diretivas, a a todas as condutas que ela aceita ou recusa e os seus valores, sua história de vida e compartilha com o marido ou a esposa ou a família, amigos com quem ela se sente ali confortável. uma pessoa de confiança dela ou ela faz essas diretivas no cartório e aí o cartório tem um sistema nacional em que são depositados todas essas diretivas e que fica fácil a localização dessas diretivas no Brasil para que o médico ou qualquer outro profissional de saúde tenha acesso quando for preciso, que é aquele momento em que a pessoa não pode mais manifestar à vontade.
Uhum. E quais são os conflitos mais comuns nesse Os conflitos mais comuns é quando as pessoas não fazem as diretivas, o médico cria uma insegurança, né, ali para pro médico em relação a algumas condutas que ele teria uma possibilidade de escolha, mas ele não conhece a história daquele paciente e nem a vontade daquele paciente e também os conflitos familiares. que às vezes um parente pensa de uma forma, o outro parente pensa de outra forma e acaba tendo um conflito ali. Às vezes o tempo é exío para uma solução que tenha que tá naquele tratamento de
— E existe então essa divergência entre familiares? existe bastante, infelizmente. É,
— Acho que é o que mais acontece.
— A grande questão assim, a falta das diretivas, como ela disse, é o maior dos problemas, porque o conflito muitas vezes ele vai vir.
— Só que se você tem a diretiva, você tem
— Do que você tá fazendo,
— Do que você tá fazendo, né? E quando não existe a diretiva e existe essa divergência entre um filho acha uma coisa, outro filho acha outra, gera uma instabilidade muito grande. Agora, a partir do momento que aquela diretiva tá clara, tá tá expressa
— E ela é válida, que isso é uma coisa muito importante também, falar da validade de uma diretiva,
— Não tem discussão.
— A gente tá autorizado legalmente e com base nas normativas do nosso conselho a seguir as diretivas daquele paciente. Só que para isso ela tem que ser um documento muito bem construído,
— Porque eventualmente as pessoas até escrevem diretivas, mas escrevem com itens que são inadequados e que você nem pode cumprir.
— Por exemplo, a pessoa pode escrever na diretiva que ela deseja eutanásia, por exemplo, no nosso país a eutanásia é crime, então essa diretiva não vai poder ser cumprida. Então é desde a construção que a coisa tem que funcionar, né? Então, uma diretiva muito bem construída, ela elimina uma série de problemas. Ela não vai eliminar o conflito, mas ela vai resolver o
— Uhum. Por isso que é bom procurar então um especialista para te ajudar nessa confecção do documento.
— Sim, porque ela tem um respaldo pro profissional da saúde, tanto na parte ética quanto na parte de jurídica, em termos de responsabilidade civil,
— Uhum. Porque uma diretiva bem construída, você tem uma redação jurídica muito clara daquilo que pode e não pode dentro do ordenamento jurídico e o médico sabe se aquele tratamento que a pessoa está aceitando ou recusando, ela fere uma distanásia, uma eutanásia, um suicídio assistido. Então, é importante que que você tenha um olhar médico dentro dela e um olhar jurídico, né, para que não exista esse conflito, né, entre essas áreas. Essas áreas, elas têm que estar juntas dentro da diretivas para que você possa construir um documento que vai ser executado sem qualquer responsabilidade pro médico, principalmente qualquer outro profissional da saúde e também pros familiares, né, que que não vão poder contestar aquelas diretivas, né? Porque o que é importante deixar claro é que a autodeterminação é o paciente que faz isso, né?
— Isso é.
— E essa autodeterminação, ela deve ser refletida. Por isso e que a gente aqui insiste em que as diretivas sejam feitas o quanto antes, porque as pessoas não estão preparadas, né, para pensar na morte, né, num num final de vida.
— É, é muito difícil. É muito difícil, né? A nossa cultura ocidental não não tem esse esse esse pensamento, né?
— É, você fala de morte, é sofrido, tem um tabu gigante, né?
— Muitos familiares não querem falar sobre isso, pulam o assunto.
— Agora, quando o próprio paciente começa a falar o que realmente ele quer para ele, fica tudo mais fácil.
— Uhum. muito.
— Eu passei recentemente isso e foi por um uma situação parecida [roncando] e o documento foi construído, né? foi de a família relutava em em ter aquele documento, mas o paciente queria e e te dá muita tranquilidade em permanecer ali ao lado dele, sabendo que está sendo feito aquilo que realmente ele queria. Uhum. Exatamente.
— E não feito o que ele não queria. Esse eu acho que é o principal, né? E que faz a passagem da forma que queria e sem sofrimento. Então, ter o documento é um é o melhor instrumento que você tem que ter nesse momento de vida.
— Sim. E hoje a gente tem respaldo,
— Né? Nós não tínhamos legislação, né, em âmbito federal que tratava sobre as diretivas. A gente tinha apenas a resolução do do CFM, que é de 2012, que trouxe um conceitos das diretivas, trouxe também a possibilidade de você nomear um um procurador
— Para também te representar. Então você quando se autodetermina, você pode nomear um procurador que vai manifestar a sua vontade. Então ele só representa,
— Tá? a sua vontade, né, quando você não puder mais se manifestar.
— E pode ser um ou pode ser dois ou você pode colocar nas diretivas que na falta de um
— O outro pode, né, te representar. Então isso é muito importante. E a resolução trouxe esse respaldo, trouxe também o respaldo de que você pode também que deve ser que a família deve atender, né, a respeitar a essas diretivas se existe. Então ali a família não vai poder opinar se você deixou as diretivas. O que não acontece se não
— É que as diretivas vão prevalecer sobre qualquer parecer não médico, inclusive o da família.
— Exatamente. Isso. Isso é muito
— Né? Que vai evitar todo todo esses conflitos, né? E e agora, mais recentemente a gente tem aqui questão de um mês, que é o Estatuto dos Direitos do Paciente, que aí sim a gente tem uma legislação em âmbito federal. E essa legislação traz alguns conceitos importantes, como autonomia, o conceito de diretivas, que também veio no mesmo sentido que já a resolução vinha e trouxe também a possibilidade desse representante e trouxe também esse respaldo também pro médico de que se houver diretivas o médico deve respeitar e os familiares
— Então hoje tá, a gente tem essa segurança jurídica em termos de legislação e âmbito federal.
— Seria importante que todos fizessem o quanto antes.
— Sim, seria. E e o quanto antes, é o quanto antes, porque nas diretivas a gente tem como base de fundo os valores das pessoas. E quando você pensa nos seus valores, é muito difícil você pensar do dia paraa noite quais são os seus valores,
— Né? Então você deve refletir e além disso você tem também um conhecimento que o profissional da área da saúde vai passar para você a respeito de dos tratamentos, dos prognósticos, né, dos diagnósticos de uma determinada doença
— E você vai precisar refletir sobre aqueles termos técnicos. Então é importante que o profissional também passe isso de uma forma técnica, porque você vai refletir sobre aquilo, você vai ver se faz sentido de acordo com os seus valores, aceitar ou recusar aquele tratamento. Então importante é que você faça isso com calma para aí sim quando você sentir autodeterminado, você realmente expor aquela manifestação de vontade pro [roncando] papel e dar o conhecimento necessário quando você não puder mais exprimir sua vontade.
— Uhum. Se você faz uma um documento desse no momento de uma vida saudável ainda que deve ser feito
— Ao longo do tempo, você não tem uma doença que ameaça a vida. ao [roncando] longo do tempo, isso pode, esse documento eu posso mudar, eu posso ir lá fazer outro, registrar novamente. Ele vai mudando ao longo do tempo,
— Tudo vai mudando. No momento que eu faço, eu não tenho doença, mas em algum momento surge que me incapacite, aí eu também posso mudar.
— Sim. ou senão algum tratamento também que possa surgir novo e você queria incluir aquele tratamento ou ou também alguma questão experimental dentro da medicina que você queira se submeter também você pode
— Colocar dentro das diretivas.
— Uhum. As diretivas elas podem ser revogáveis a qualquer momento.
— Então, assim que você sentir que é necessário revogar aquelas disposições que você colocou ali, não tem um prazo fixado a qualquer tempo.
— E também a gente não tem validade paraas diretivas. Alguns países têm uma previsão de cinco, de três, depende de cada país. Portugal tem uma previsão de 5 anos para diretivas, mas a gente aqui no Brasil não tem nada estipulado em termos de legislação em relação ao prazo de validade. Então ela pode ser revogável a qualquer tempo.
— Ah, que bom.
— Como equilibrar o que é possível fazer com o que deve ser feito? Esse é
— As difíceis todas para mim. difíceis. [risadas] eu falo para para pr paraas pessoas que eu trabalho, pros meus colegas de trabalho, que assim, [roncando] a comunicação ruim, ela é responsável por 99% dos problemas e a boa comunicação, ela é responsável por 99% das soluções.
— Então, esse equilíbrio não existe uma receita mágica pra gente conseguir. Como é que nós conseguimos esse equilíbrio? A primeira coisa é ter muita clareza da definição do caso, diante de que paciente você está, de que doença que você está enfrentando, do que já foi feito e o que ainda tem a ser feito e dessa verdade mesmo de sentar com esse paciente e muitas vezes colocar o elefante na sala, sabe? E falar: "Olha, eu preciso falar coisas difíceis com você, mas elas precisam ser ditas. Elas são difíceis, mas elas não podem ser evitadas. E aí construir essa conversa com o paciente sempre que possível, o quanto antes e progredindo com essa conversa com as pessoas que são importantes com esse para esse paciente, porque por mais que a resolução do conselho diga: "Ah, o parecer do paciente prevalece, a diretiva dele prevalece", é óbvio que as pessoas que estão ao redor, elas vão expressar as opiniões delas
— E muitas vezes por amor,
— Por cuidado, né? Então eu acho que assim, o que nos move a achar esse equilíbrio do que precisa ser feito, o que deve ser feito, o que não deve ser feito, até onde deve ser feito, é a construção em cima daquilo que é ciência, do caso concreto que você tem, da saúde, da doença, do do que nos desafia, o que já foi feito, que ainda pode e aquilo que você constrói com essas pessoas que estão envolvidas no cuidado. Então é aí que a gente acha a
— Entendi. E então não existe uma receita mágica, existe um plano individualizado que você vai construir em cada cenário. Porque, por exemplo, o que eu construo com você, Andréia, é muito diferente do que eu construo com uma família de testemunhas de Jeová, por exemplo.
— Sim. Uhum.
— A construção com eles é outra. E não quer dizer que não vai dar certo. Não quer dizer que vai dar certo. Quer dizer que eu vou construir aquilo em cima dos valores, das crenças deles, baseada no caso concreto, que é aquela doença que tá ali.
— Nos ameaçando, está na sala
— E a gente precisa falar sobre ela,
— Né? Então, muitas vezes a gente coloca o mamute na sala e assusta um pouco as famílias, porque nós vivemos, como ela disse, uma cultura, a cultura do proteger, uma cultura paternalista, uma cultura que ai não fala nada pro paciente, senão ele não
— E isso não é legal. É porque muitas vezes o paciente a esse cerco do silêncio que se cria ao redor de alguns pacientes, muitas vezes ele é um cerco fictício, que o paciente finge que não sabe, a família não fala e e fica aquela coisa de ele esconde da família que ele sabe e a família esconde dele que ele sabe e no fim todo mundo sabe de tudo e ninguém está falando sobre o que precisa ser falado, né? Então eu acho que quando a gente, a primeira coisa que a gente enfrenta é a desconstrução desse cerco do silêncio e o por que é importante trazer paraa mesa essas questões para que a gente possa tomar as melhores decisões, todo mundo entende e a gente consegue organizar o cuidado de cada um.
— Isso acontece com muita frequência
— Todos os dias,
— Né? Então eu brinco que eu sou a pessoa que muitas vezes coloca o elefante na E eu sou muito grata por essa função que eu tenho. Me sinto honrada porque e às vezes eu brinco assim, né? acho que a uma das minhas maiores habilidades é essa, é a comunicação clara. Eu sou, eu gosto disso, eu gosto de clareza, eu gosto de verdade, eu gosto de consenso, eu gosto de equilíbrio, eu brinco, né? Sou libriana, eu preciso de, né, chegar num num consenso,
— Mas mostra muita segurança do que tá
— Eu e eu e isso é necessário. Então assim, eu é uma das minhas potências essa, né, essa capacidade de chegar nas pessoas, acolher os sentimentos delas, validar, explicar o que está acontecendo, ouvi-las e dali deliberar a melhor saída, né? Então, todos os dias eu faço isso porque eu lido com especialidades muito desafiadoras, tanto a geriatria quanto a medicina paliativa, a gente vive enfrentando situações limítrofes, né? Uhum.
— E são momentos que a gente precisa se posicionar, todos nós, eu, o paciente, né, a equipe da UTI, enfim, seja quem for que tá ali envolvido naquilo, os familiares. E dizer que a diretiva do paciente prevalece [roncando] sobretudo, não é excluir os familiares, é isso que eu acho muito importante, mas é tentar trazer os familiares a entender o por valores daquela pessoa são importantes para ela. No final da conta, quando você consegue equilibrar essa conversa, a própria família vira o maior cão de guarda dos direitos do paciente, sabe?
— Sim. Sim. Porque a vontade dele.
— A vontade dele.
— Sim. E eles ficam seguros também de que se não houver diretivas, eles ficam na dúvida de determinadas situações, né? Porque são valores que são intrínsecos. E muit das vezes aquele familiar ou aquele amigo mais próximo não tem ideia do que aquele valor é importante para aquela pessoa. Talvez ela nunca tenha exteriorizado a aquela vontade, né, ou aquele valor. Então, por conta desse, a aspecto intrínseco, é que o familiar muuit das vezes não consegue auxiliar e tem dúvida na hora de uma determinada conduta, conseguir, né,
— Consegu conseguir. Sim, tem. E essa diretiva, ela faz, ela é construída, hum, mediante a saúde dele naquele momento, que ele quer se ele for internado. Me corrija se eu tiver errada. E eu também posso acrescentar nesse documento outras vontades que eu tenho sem ser só com a saúde.
— Sim, sim. As diretivas ela é um gênero, dentro das diretivas, eu tenho o mandato duradouro, que na verdade é a também denominada, né, procuração para cuidados de saúde, que é quando eu nomeio um ou mais representantes para me representar quando não puder mais exprimir vontade, mas me representar dentro daquilo que eu me autodeterminei, né? E a gente tem também o testamento vital. O testamento vital, ele é quando eu tenho uma doença iminente e que aquela doença já está em fase terminal ou uma doença degenerativa que também já tá bem avançada, eu falo em testamento vital.
— Dentro das diretivas, eu posso colocar outras disposições, disposições em relação ao funeral. em relação a material genético,
— Doação de órgãos,
— Doação de órgãos. Ainda algumas questões controvertidas. a doação de órgãos ainda é um pouco controvertida se eu posso colocar ou não, mas a questão do funeral já tá mais acentuada de que podemos colocar porque ah como a legislação não trouxe nada relacionado ao conteúdo do que deve ser colocado nas diretivas, muito abrangente.
— Sim, sim. Se abre para várias frentes, né? para várias frentes e aí só no caminhar é que a gente vai realmente verificar aquilo que pode o que não pode. Por isso que é importante que você faça a as diretivas de uma forma muito técnica para que não tenha nenhum problema em relação a a alguma cláusula que você tenha colocado ali nas diretivas, né? Porque a produção de efeitos dessas diretivas vão ser ali enquanto você tiver em vida, né? Por isso que a gente não usa o o a denominação de testamento, né? Que o testamento ele vai produzir efeitos só após a morte, né?
— Sim. Sim. Sim. não ficou bem claro as diretivas e o testamento vital. Isso ficou bem claro. Era isso que eu queria deixar claro, porque às vezes as pessoas confundem um pouco o que que pode colocar neste documento.
— Mas existe dois documentos. dois as pessoas também algumas disposições relacionadas à autocuratela dentro das diretivas também,
— Que é uma nomeação de um curador.
— Para para os cuidados ali patrimoniais e pros cuidados de saúde. Você pode nomear diferentes pessoas ali para aqueles cuidados e essa autocuratela também pode ser inserida dentro das diretivas. Por isso que ela é um é um documento
— Tá? E nem sempre, não necessariamente pode ser uma pessoa da família, pode ser uma pessoa escolhida por isso que a pessoa isso, que a pessoa tenha confiança, né? E que a pessoa tenha uma relação mais íntima,
— Né? E você pode também colocar o médico de sua confiança.
— É, recentemente nós tivemos eu tenho um paciente que ele tem quase 100 anos, ele é sozinho,
— Não? Então isso acontece muito também
— Sozinho, lúcido ainda, mas já com algumas limitações. Aí ele elegeu,
— Né, o advogado dele, amigo, o advogado dele para ser o curador,
— O curador,
— O curador dele e foi o melhor caminho. Hoje a gente consegue ter maior tranquilidade no cuidado
— Porque só existe um sobrinho fora do
— Sim. que não conseguiria atendê-lo aqui.
— Não. E tem tem coisas que nós precisamos com agilidade, né, enfrentar algumas situações na parte clínica e precisamos de autorizações. E aí agora fica muito mais fácil porque eu tenho essa pessoa para nos ajudar e muito, principalmente ajudá-lo, né? ajudála, porque contas bancárias, essas questões já estavam
— E às vezes essa pessoa amiga é mais próxima do que um familiar, que você vê que esse familiar tá em outro país,
— Tá distante,
— Vem a cada seis meses, então fica mais complicado. Então tendo esse documento hoje ficou muito mais fácil,
— Muito muito mais fácil
— A importância de ter alguém ali, um apoio nesses momentos de fragilidade. E o importante também é é que você consiga publicizar esse documento para que quando ele precisar ser utilizado,
— Né, ele seja de fácil acesso.
— Uhum. Hum.
— Então isso é muito importante. Se você faz de forma particular,
— Né? você deixa, carrega ele sempre com você ou informa seus familiares que você deixou aquela disposição.
— No prontuário, você avisa o seu médico vai saber, mas se você tiver com outro profissional que ele entra em contato com esse médico e e aí no cartório a forma pública acaba tendo e esse acesso também de de forma mais fácil, né? O importante é isso, porque não adianta você estruturar muito bem esse documento, mas não dar a publicidade adequada a esse documento, porque senão vai chegar, não vai chegar esse documento quando ele precisar
— Ser utilizado.
— É, no meu caso foi um pouquinho diferente. Então, foi o o meu ex-marido que fez, né, todo o documento. Eu estava junto e uma via para cada um, uma via para mim, uma via pros filhos, uma via com ele no bolso dobradinho, porque onde ele ia, ele já queria apresentar o documento e uma no prontuário. E todos os médicos já cientes do desejo e da vontade dele. Todos assinaram, então ele andava com, ele assinou, tava tudo bonitinho. É muito mais fácil. Sim,
— É muito mais fácil. E hoje a assinatura, a gente pode fazer uma assinatura por física, né, com reconhecimento de firma em cartório. Sim.
— De preferência por autenticidade
— Que o cartório vai verificar que a pessoa foi presencialmente lá assinar. É isso que que o cartório vai qualificar no reconhecimento dessa assinatura e também a assinatura de forma digital que você pode fazer hoje pelo gov.br. né? Ou por meio ali da da assinatura do pelo e-Notariado também, que são duas assinaturas bem fidedignas para esses
— Isso acontece na prática?
— Na prática não, porque as pessoas, infelizmente, ainda não estão construindo diretivas. Acho que a grande maioria ainda constrói ali na fase aguda, né?
— É, hoje em dia a gente acaba trabalhando, é, meio que apagando o incêndio, né? Então hoje o que que a gente faz? Tenta puxar o fio daquela informação. Então, recentemente, por exemplo, é um paciente chegou sem consciência no hospital e ele recusava um determinado tratamento lá. Só que uma familiar trouxe que ele havia recusado verbalmente e havia sido registrado em prontuário num outro hospital. Que que eu fiz? Pedi essa informação pro outro hospital.
— Sim. Sim. Então hoje a gente fica correndo atrás ali de achar os meios, de validar aquilo que tá sendo expresso,
— Verbalmente por um terceiro. [roncando] E nesse caso a gente conseguiu, mas assim, o maior desejo é que a gente consiga fazer com que os médicos e os profissionais de saúde ao longo dos tratamentos vão construindo isso com os seus pacientes, orientados de uma forma técnica para que as pessoas começam comecem a ser educadas.
— Né? Durante as suas consultas, durante as suas visitas de saúde, [roncando] a executar as suas diretivas, né? A construir para que um dia elas possam ser utilizadas. E mais do que construir é publicizado.
— Exato. Exato. e não procurar só nos momentos críticos. Pensar, porque pode acontecer um acidente, né?
— Do dia paraa noite, você pode sofrer um acidente e não conseguir mais manifestar à vontade.
— Uhum. Uhum. E o que muda quando o paciente já deixou isso registrado?
— Muda tudo, [risadas] facilita demais, né, a equipe assistencial a conduzir aquilo de acordo com os desejos do paciente.
— Uhum. Então isso sana diversos conflitos com a família, isso coloca o paciente no centro do cuidado e nos ajuda a dirigir o tratamento dele de acordo com os desejos. Desde que aquela diretiva seja válida e tudo que ele coloca ali seja realmente legal do ponto de vista da lei mesmo, é perfeito. temos todas as ferramentas para seguir em frente e cuidar dele com tudo que ele desejou.
— E qual é o maior erro das famílias nesse é querer quebrar as diretivas dos pacientes, né? Querer se sobrepor e dizer que, ah, mas eu não concordo com isso e entender que, por mais que você não concorde, se o que ele está pedindo está dentro da lei, é adequada, é uma diretiva bem construída, você não vai conseguir quebrar, porque existe
— Resolução que protege o profissional e hoje já existe lei publicada aí no dia 6 ou 7 de abril agora,
— Tá? que é o Estatuto dos Direitos do paciente, que garante isso ao paciente.
— Então, acho que o maior erro da família de fato, é tentar quebrar aquilo que é inquebrável
— Quando está bem construído, né?
— Com certeza. Ignorar a vontade do paciente ainda é comum.
— Oh, demais, demais.
— E até porque os familiares às vezes olham, na verdade, aquela situação com os seus valores próprios, né? Então, o que é difícil hoje e que deve ser construído na sociedade é que você tem de respeitar os valores do próximo, né? Tanto os profissionais da saúde quanto os familiares.
— Né? E para isso a gente tem a a as diretivas, elas estão respaldadas pelo princípio da dignidade da pessoa
— Né? Então, o princípio da dignidade da pessoa humana, ele é um princípio que ele deve ser norteado por todo o nosso ordenamento jurídico. Então, é um princípio que tá na Constituição, é um dos fundamentos da nossa Constituição no Brasil e ele respalda todo o ordenamento jurídico, né? Então, [roncando] aquelas diretivas que foram construídas ali, elas devem ser respeitadas com base neste princípio. Então, deve ser respeitada pelos familiares, pelos profissionais da saúde e pela sociedade,
— Né? Porque são valores, são vontades manifestadas ali e que devem ser respeitadas, né? Porque o que é digno para mim às vezes não é digno para você, né? Então esse respeito tem que ser com base no outro, né? Então, e a sociedade vai se construindo para que você vá mudando esse pensamento, né, de que quando você olha para uma outra situação, você não pode olhar com os seus valores e sim com os valores daquela pessoa, né, que que é só ela que pode realmente gerenciar e decidir sobre os aspectos da vida dela. E a gente tem que respeitar isso. E a nossa Constituição traz isso como princípio. E todo o ordenamento jurídico abaixo dessa constituição respalda esse princípio.
— É isso. É tão verdadeiro que quando eu lia o documento, aquele fal, mas não quer isso, não quer isso, não quer. É tão difícil mesmo eu sendo da área, né? É, é complicado você ler aquele
— Né? onde eu assinei, eu tô respeitando ali aquela vontade dele, mas isso também não. Não, isso também não.
— Mas e não, isso também não. Então é esse o respeito que você tem pelas decisões dele. É respeitar aquele aquele jeito que ele quer que siga.
— Né? Mesmo te do e esse desafio, ele não é só dos familiares não, viu Déia? Muitas vezes esse desafio é dos profissionais de saúde também. Às vezes os profissionais de saúde, assim, isso é muito comum, mais uma vez trago a questão dos testemunhas de Jeová, né, que recusam a transfusão de hemoderivados e assim eu viv aceitaria hemoderivados tranquilamente. Se eu precisar pode transfundir quantas bolsas quiserem,
— Mas quando eu estou cuidando de uma pessoa dessa religião, eu visto a capa da pessoa que não aceita e vou junto com ele defender isso. E aí muitos profissionais chegam, mas como que absurdo isso iria salvar a vida dele? Não existe ali dentro da crença religiosa e daquela sociedade em que ele vive, né, daquela comunidade religiosa, a ideia de que aquilo não, aquilo te torna impuro ali dentro daquele sistema, então isso é ruim para você e esse é o valor dele. Então o primeiro não fazer mal, né? Se isso faz mal
— Aos olhos dele, então não vamos fazer, né? Mas é muito difícil hoje em dia até convencer os profissionais de de certas questões. Tá melhorando,
— Mas ainda temos um desafio grande pela
— É, eu lembro que eu lia toda, andava com o documento, né? Aí quando você falei: "Ai, meu Deus, espero que não chegue essa hora". Mas a hora chegou,
— Né? A hora chegou, porque foi construído antes, mas a hora chegou e foi feita exatamente a vontade, a vontade dele, mesmo doendo, mas era aquela vontade
— E foi respeitada. E existe culpa depois dessas decisões?
— A culpa da família
— Quando respeitadas as decisões do paciente? Raramente,
— Raramente, né?
— Porque existe mais culpa quando não ouve essa conversa porque fica o e si e si. Quando aquilo já era certo, já era posto, já era tácito, os familiares falam: "Tô tranquilo".
— Aquilo foi feito tudo de acordo como ele ele desejou. Isso traz ele ou ela, né? Isso traz até conforto, na verdade.
— Isso traz até um conforto no processo do luto. A chance de um luto complicado é muito maior
— Quando a pessoa não tem a certeza se ela
— Todas as vontades do paciente.
— É isso. Com certeza. Eu já tô tranquila. foi feito tudo do jeitinho que ele queria. Do jeitinho que ele queria. Quia
— E o que caracteriza uma decisão bem
— O que caracteriza uma decisão bem tomada? bom, a primeira coisa, uma coisa que a Jaque falou é a questão da pessoa ter um autoconhecimento, saber quem ela é, quem são os valores dela. Então, primeiro precisa se conhecer.
— Para tomar decisões bem tomadas, você precisa saber quem é você e o que você realmente quer.
— Porque muitas vezes a gente também acha que a gente quer uma coisa, mas de repente nós olhamos para aquilo e se você analisar bem a fundo, aquilo não é
— É do outro ou você tá fazendo aquilo pensando no outro.
— Então a primeira coisa é o
— Para uma decisão bem tomada. Depois é você tornar isso público a quem precisa. Claro, você não precisa publicar no Estadão a sua diretiva, mas você precisa pelo menos avisar
— O seu cônjuge, seus filhos, se você tiver, os seus pais, se eles forem vivos, seus irmãos, seu médico e os o seu advogado, as pessoas que realmente vão influenciar ali naquele momento em que você precisar que alguém tome essas decisões. E por fim, você saber que as escolhas que você tá fazendo ali estão todas, é, respaldadas na força da lei, na força das resoluções e que todos
— Podem cumpri-la, né? Então essa é a decisão bem tomada, é você se conhecer, saber que as pessoas que você precisa, que estejam a par estão e saber que o seu documento está muito bem construído e que ele nada, nenhum teor negado,
— Né? E acho também que vale a pena revisitar as suas diretivas a cada x tempo, né? Então você consela hoje, revisita daqui um tem falar: "Não, acho que isso eu mudei, o mundo mudou". Então talvez eu queira mudar isso daqui.
— Não, só de ficar claro que pode mudar, pessoas ficam mais tranquilas, né?
— Não é não é nada rígido, porque no final não é só sobre decidir, é sobre respeitar. É sobre respeitar. Tá.
— Se vocês pudessem orientar uma família que está vivendo isso hoje, o que
— Quer começar? Vou começar.
— Ó, a primeira coisa é você realmente pensar, né, que a vida é finita, né, e não infinita, né? É finita. e que você tem que começar a pensar, né, de como que qual é a dignidade que você dentro de você para que você passe a começar a pensar sobre as aceitações e recusas relacionadas aos tratamentos e aos cuidados de saúde, né? e fixado e esses seus valores, você procurar um profissional da saúde para que você possa ter o conhecimento, né, a respeito das partes técnicas, né, do dos tratamentos ali que são possíveis para E se for, se você já tiver alguma doença já em andamento, quais são, se você não tiver, você pode fazer essas diretivas de uma forma mais ampla, o que nada impede depois se vier alguma doença você revogar aquela anterior, mas você já estabelecer todos esses critérios ali nas diretivas e já deixar esse documento para evitar que haja que você não seja ouvido quando você não puder mais manifestar à vontade
— Para você evitar que a sua, para você conseguir, né, na verdade que a sua vontade seja
— Prevaleça, né, sobre os familiares e sobre qualquer conduta médica
— E e principalmente essa autodeterminação, né, que isso é o mais importante, né, na dentro das diretivas, não só a vontade de fazer documento, mas aquela autodeterminação, é aquela autodeterminação sua é que vai respaldar uma conduta médica ou qualquer conflito que você tenha a ali na família. Isso é o mais importante. E deixar bem claro que as diretivas elas são realizadas para as pessoas maiores de 18 anos, né, e para pessoas capazes e que estão em pleno discernimento. A gente no direito trata o pleno discernimento como aquela pessoa que ela tem a o o a o discernimento realmente, né, para que ela saiba que aquele documento que ela está estabelecendo quais são as implicações futuras daquele documento. Então o discernimento é nesse sentido, né? ela tem realmente ali a possibilidade de saber o que aquele documento vai respaldar para ela no futuro.
Então esse é o discernimento que é olhado ali quando você faz a as diretivas, né? E e no caso, quando não tem uma doença, né, que compromete a a continuidade da vida, ele ainda está em plena saúde, ele não precisa, então, nesse momento, procurar o médico, ele procuraria diretamente um advogado para o ideal é que ele procure que que esse documento seja construído junto do médico e do advogado, porque dentro desse documento tem muitas questões
— Tá? mesmo ele não tendo uma doença.
— Mesmo ele não tendo uma doença, porque eu consigo estipular uma diretiva que ela vai ser mais ampliativa,
— Né, para determinados casos, se acontecer tal coisa, se acontecer e aí você colocar de forma detalhada quais são as possibilidades que de uma doença X, de uma doença Y. Então você detalhar muito bem isso e dentro de dessas possibilidades de doença, quais são as condutas que você gostaria que você aceita ou que você recusa, né? quais são os tratamentos e os cuidados que você aceita ou recusa quando você não tem realmente ali uma doença degenerativa ou alguma doença já em fase terminal que você consegue reduzir um pouco mais, né, essas disposições. Então, o que é importante é que essas disposições fiquem muito clara e muito detalhada, porque se as diretivas forem muito genéricas, quando for executar, vai ainda continuar dúbil pro médico que vai executar.
E aí fica difícil para ele realmente estabelecer ali qual era a sua vontade naquele documento. Por isso que é importante que você tenha uma redação jurídica muito boa, clara e com o respaldo técnico do médico para explicar certinho quais são, né, e os tratamentos e os cuidados necessários para aquelas determinadas situações. E você também tira dúvidas ali com o paciente, né, depois que você trouxe todo o conhecimento, se ele tem alguma dúvida, se ele quer fazer alguma pergunta, né, e deixar aquele paciente pronto no momento dele para falar: "Não, agora eu quero realmente eu já tenho todo o conhecimento técnico, já tenho conhecimento jurídico do que eu posso colocar ou não e agora eu estou pronto para realmente passar tudo isso pro papel, né? né?
Que daí esse passar tudo isso para papel é realmente formalizar as diretivas, né?
— É que as pessoas às vezes acham assim de tipo fazer diretiva é chegar paciente perguntar: "Ó, o senhor aceita intubação? Você é Andréia, você é enfermeira, você sabe o que é uma intubação? Para que serve? Em que contexto está indicado, em que contexto não está?" Mas e o leigo? O leigo não sabe para que que é uma intubação,
— Né? Então, antes dele decidir se ele quer ou não uma intubação, ele precisa saber o que que é uma intubação e os
— E por isso que a gente fala que mesmo num contexto de saúde atual, é importante que a gente leve essa pessoa a vislumbrar cenários futuros em que ela possa vir a precisar de procedimentos invasivos. E aí a gente explica o que é cada procedimento, em que contextos que estão indicados, em que contextos que podem prolongar a vida sem qualidade para que aí a pessoa possa
— Ficar muito claro, né? Tem que ficar muito claro isso muito, muito claro,
— Muito claro, muito claro. Por isso que é importante o parecer médico. E a outra coisa é assim, o parecer médico, digo, o acompanhamento médico nessa construção, né? E outra coisa que assim, não necessariamente se uma diretiva sua muda, né, um item da sua diretiva, você não precisa revogar ela inteira, mas você pode retificar aquela diretiva que que você já fez antes, né? No cartório é bem provável que você tenha que eliminar aquele documento anterior e construir um novo, mas você não precisa deletar tudo que foi feito, né? Você só atualiza
— Aquilo que já tá construído, principalmente se as mudanças forem poucas. você tinha feito uma última pergunta se a gente tivesse
— A mensagem que você deixaria
— Mensagem. bom, a primeira mensagem que eu deixaria para pacientes e familiares, né, não adiem conversas difíceis. Às vezes, o ser humano ele tem esse hábito, né, de empurrar com a barriga certas coisas, não deixa isso para depois e tudo. Então, por mais difícil que seja uma conversa, uma conversa difícil hoje, ela vai sanar uma série de futuros problemas que tão estão por vir. Uhum. E a mensagem que eu deixaria pros profissionais de saúde, sobretudo pros médicos, né, que no final da conta é quem decide se vai entubar, se não vai e tudo isso, é capacitem-se para poder orientar os pacientes de vocês. Orientem diretivas quando o teu paciente tá saudável, sentado na tua
— Traga esse assunto pra mesa quando ele ainda não é um problema.
— Né? Então você vai numa consulta de rotina, aproveita esse momento, né? Teu paciente tá chegando ali para uma consulta de rotina, ele tá bem, ele não tem doença nenhuma, pergunta para ele: "Você já ouviu falar sobre diretivas?" "Ah, não ouvi. Conta para ele o que é isso. Pergunta se ele tem o desejo de construir. E mais do que isso,
— Para construir isso com ele, né? Então, são essas as principais mensagens que eu deixaria aí paraas pessoas, né? Não diria nem pacientes e familiares, pra
— E pros profissionais. Isso é uma forma, né, de você planejar, né, as questões, porque a gente planeja algumas questões, dentro da da área jurídica, patrimoniais, sucessórias, familiares, mas as diretivas ainda tão tão pouco disseminadas, né? Então a gente tem que ter essa preocupação também em fazer um na questão dos direitos existenciais, que aí encontram-se as diretivas, né? Então elas devem ser feitas, não é só a gente não tem que ter uma preocupação só de cunho patrimonial, ah, como é que eu vou organizar o meu patrimônio antes de falecer? Não, a gente tem que ter o o preocupada com com você,
— Né, com com os seus valores, com as suas vontades. Então, a gente tem que introduzir essas diretivas dentro desse né? Você ali não pode deixar passar
— Isso, porque senão você às vezes faz todo um uma planejamento do seu patrimônio, das questões E esquece de você, né?
— Você esquece de você, né? Você tá fazendo tudo relacionado ali a as coisas em âmbito externo, né? que eu vou deixar isso para um para um familiar, isso para outro, mas você tá esquecendo de você
— E eu acredito que você seja a pessoa mais importante. Então você tem que se planejar o quanto antes para que você possa ser atendido e ouvido num num final de vida, né?
— De vida. É, é falar de morte, é falar de sofrimento. Acho que vai, vai relacionando tudo isso. Por isso que a construção do documento acaba sendo
— Porque é um tabu ainda falar sobre a morte. Muitas pessoas não querem, adiarem, é temas difíceis, acha que falando sobre isso vai acontecer mais rápido, vai chamar de alguma forma isso por tudo por crenças,
— Por várias várias coisas. Mas é isso tem que ser quebrado,
— Tem que ser quebrado para que os profissionais consigam atuar de uma forma mais eficiente, mais perfeita dentro da vontade daquilo que o paciente quer, né? Da vontade dele.
— Fica tudo muito mais fácil. Mas eu falo que é muito difícil.
— É muito, muito difícil mesmo.
— É, é muito difícil, mas precisa ser construído. Nós construímos o documento e foi a melhor coisa.
— Sim. Isso dá segurança para todo mundo, dá conforto para familiar
— E e dá esse respaldo principalmente pros profissionais da saúde, né? em termos jurídicos, respalda muito o os profissionais da saúde, em especial o
— É porque aí você acaba entubando um paciente, levando para uma UTI, né, perspectiva, utilizando um leito onde você poderia estar utilizando para um paciente que realmente, né, sairia daquela UTI com vida, você só tá prolongando o sofrimento do paciente e da família. Exatamente.
— Exatamente. De realmente às vezes uma doença ali que é iminente, é inevitável e que você só tá
— Você não prolonga a vida, né? Você prolonga o sofrimento.
— Exatamente. Só o sofrimento.
— Nesse contexto acho super importante a gente falar sobre uma coisa, porque muitas vezes os profissionais de saúde, sobretudo os mais jovens, os formados há menos tempo, fazem procedimentos invasivos com medo de um processo. E se eu não fizer, a família vai me processar. Só que, e a gente precisa lembrar que prolongar uma vida às custas de sofrimento se chama distanásia. E a distanásia é uma prática médica. Uhum.
— Então, se você tá fazendo aquele procedimento, só tá prolongando uma vida que vai acabar a qualquer custo por conta daquela doença e você está prolongando isso, também você pode ser processado por isso. Então, eu sempre falo pros colegas, nunca aja por medo de ser processado,
— Sempre aja no melhor interesse do
— Uhum. Uhum. Sim,
— Né? Agir por medo de ser processado.
— Nem sempre envolve o melhor interesse do paciente, né?
— Com certeza.
— E o melhor interesse do paciente é o que respalda o princípio da dignidade da pessoa humana, né? Então você vai estar diretivas. Exatamente. Nada disso aconteceria, né, se estivesse a de fato o documento, né? Nada disso acontece se o documento está em mãos. É esse. Recentemente até uma pessoa muito querida brincou comigo. Era uma brincadeira realmente, sei lá, uma gripe, ai doutora, brincou comigo, eu vou morrer. Eu falei, eu tenho uma notícia para você, você vai. Eu só não sei quando. Então assim, um dia todos nós vamos, né? Eu só não sei se você vai morrer dessa gripe ou se você vai morrer daqui 50 anos num outro contexto. Mas eu tenho uma notícia, você vai morrer.
— Então, se todos nós vamos morrer, né? façamos a organização para facilitar até a vida das pessoas que a gente ama, né? [roncando] E tem uma uma vez num congresso uma aula de um professor paliativista português, um uma figuraça assim, né? E ele deu uma aula incrível e aí no final da aula, né, era um curso avançado em cuidado paliativo há anos atrás. E aí quando terminou a aula dele, ele virou: "Bom, então eu desejo que todos vocês com aquele sotaque português morram bem."
— E é verdade, tá certo. É isso, porque você vai morrer, isso é certeza, entendeu? E se você vai morrer, que você morra bem, que você morra com dignidade, né? Dentro daquilo que é digno para
— Né? E e a sociedade tem de respeitar por uma questão, né? De um princípio realmente constitucional.
— E os profissionais da saúde também, né?
— Também. Também. Por isso a capacitação.
— Sim, exato.
— Por isso a capacitação a gente cai lá na comunicação, educação continuada, naquilo que eu falo que
— Precisa isso precisa. Nós precisamos reciclar a todo momento conhecimentos.
— E propagar, né? De nesse contexto é muito importante esse podcast
— Que você construiu aqui, porque acho que hoje com Instagram a gente consegue TikTok, Instagram, YouTube voar, né?
— Não tinha não tinha essa informação tão disseminada. Essa é a importância mesmo do podcast de levar a informação de forma clara, simples, para que todos possam escutar, entender, né, e colocar em prática.
— Tá disponível aí. Tá disponível. Acesse as nossos canais digitais.
— Doutoras, muito obrigada. Ai, gente, foi um prazer tê-las aqui.
— Prazer, sempre gostoso. Aprendi bastante. Eu sempre aprendo. Eu sempre falo que eu aprendo muito aqui, porque a gente não sabe tudo. Eu trago justamente pessoas onde os temas não não tem como eu aprofundar e aí eu trago quem realmente trabalha com isso todos os dias e que tem clareza e muita experiência no que faz. Foi muito bom,
— Muito bom. Muito obrigada. Sempre uma honra estar aqui com você.
— Obada. E Dra. Vivian vai voltar. vai voltar [risadas] em breve.
— A gente sempre sai daqui com encontro marcado, né?
— Encontro marcado. [risadas] Toda temporada ela vai vir, vai vir.
— Obrigada, prazer. Obrigada a você.
— Decidir por alguém nunca será simples, mas pode ser mais leve quando existe preparo e diretivas antecipadas de vontade e mais justo quando existe [música] respeito pela vontade de quem vive essa história. Falar sobre isso antes não antecipa o fim. Antecipar essa conversa é uma forma de cuidar. [música] Se esse episódio fez sentido para você, compartilhe com alguém que também precisa ouvir isso e acompanhe o viver mais, cuidar melhor nas redes [música] sociais. Obrigada e até o próximo
Conteúdo informativo. Não substitui a avaliação médica individualizada.
Precisa organizar o cuidado em casa?
A enfermagem da EPAD conversa com a família e monta o plano.