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Podcast Viver Mais, Cuidar Melhor · 19 mar 2026 · 73 min

Cuidador de idosos ou técnico de enfermagem? Como decidir a melhor opção?

Com Michela Merchan, assistente social, gestora em saúde do idoso e especialista em gerontologia social

A assistente social Michela Merchan fala da culpa e da sobrecarga de quem cuida de um idoso na família: dividir tarefas, montar uma rede de apoio, decidir com o idoso no centro do cuidado, planejar com antecedência e saber quando contratar um cuidador ou um técnico de enfermagem.

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Transcrição automática do áudio, com correções pontuais de nomes e termos. O travessão marca a troca de quem fala.

Se você tem um idoso em casa, provavelmente já sentiu isso. Culpa. Culpa de não estar sempre presente. Culpa de se sentir cansado, culpa de achar que tinha que dar conta de tudo sozinho. Em muitas famílias, quem cuida não é quem escolhe, é quem sobra. E ainda se sente culpado por pensar em pedir ajuda. Este é um espaço de conversa, reflexão e informação sobre o envelhecimento, saúde, cuidado e qualidade de vida. Aqui acreditamos que envelhecer é um processo natural e que o cuidado quando feito com conhecimento, planejamento e humanidade transforme histórias, famílias e trajetórias. Eu sou Andréia Teodoro

— E eu sou Monique Antelmi. Somos enfermeiras e atuamos há mais de 25 anos no cuidado ao paciente, seja no hospital ou em casa, na gestão em saúde e na formação de profissionais. E hoje vamos conversar sobre um tema essencial para quem cuida, para quem é cuidado e para quem quer viver mais e melhor. Nossa convidada de hoje é Ana Michela Lista Merchan, conhecida no mercado como Michela Merchan. É isso, né, Michela? Exatamente. [risadas]

— Michela social, gestora em saúde do idoso, especialista em gerontologia social pela PUC São Paulo. Atua diretamente com pessoas em processos de envelhecimento, com foco em cuidado humanizado e valorização da autonomia do idoso. Michela, muito obrigada por aceitar o nosso convite. Estamos muito honradas aqui pela sua presença,

— Michela. Vamos começar o nosso além da sua experiência que você vai compartilhar aqui conosco, a gente quer entender quando a gente fala em cuidado familiar, o que que isso realmente

— Então, tá bom. Bom, primeiro sou eu quem agradeço o convite, poder falar um pouquinho, né, ter essa oportunidade, de falar desse da questão do do idoso, o processo de envelhecimento e o processo de cuidado são assuntos de extrema importância para nossa sociedade. Então, o agradecimento é meu para Andréia e para Monique por essa oportunidade. Então, vamos lá. eu acho que nós que trabalhamos na área da saúde e não só na área da saúde que trabalhamos com pessoas em processo de envelhecimento, nós temos a obrigação e o compromisso de quebrar alguns paradigmas que foram desenhados ao longo do tempo na sociedade. Então, a primeira coisa que a gente tem que entender é que o envelhecimento é um processo comum da nossa vida. faz parte, né, da a gente nasce, cresce, reproduz, em algum momento a gente vai envelhecer e em algum momento vai chegar a nossa e o meu papel, eu acho que é o papel de cada um de nós, é dar foco e estimular as pessoas em processo de envelhecimento de que assumam o protagonismo do seu Bom, então acho que isso é a é o primordial.

Na sequência, pra gente falar um pouquinho de cuidados, o cuidar, ele é uma responsabilidade de todos nós. Ele é uma responsabilidade primeiro do indivíduo, porque ele tem que ser responsável pelo seu autocuidado. Eu falo em protagonismo e na sequência eu já tenho que falar da do do autocuidado. Ele que vai definir muito desse processo de envelhecimento. E depois a gente envolve demais enfim, pessoas, família, amigos e a sociedade civil como um todo. O processo de cuidar, ele começa na na convivência familiar, no cotidiano, no dia a dia, e a gente entendendo e respeitando a história de daquela pessoa. Eu acho que ali começa o cuidado. Você entendeu? Quando você entende quem foi aquela pessoa, qual é a sua biografia, e isso acontece através dos laços que são familiares, laços de amizade, a gente começa a entender na hora do cuidado o que que para aquela pessoa é importante, o que que é valor, quais são os seus medos, os seus anseios.

Eu acho que ali já começa a a melhor forma de cuidar.

— E muitas famílias confundem, né, o cuidado em fazer tudo sozinha. Nós termos que cuidar de um de um ente querido que esteja ou um ente querido idoso em processo de envelhecimento e adoecimento. Não quer dizer que a gente tem que se A gente pode cuidar não tendo que estar presente 100% do tempo, até porque o cuidado deve ser

— Porque senão ele gera cansaço, exaustão.

— E isso,

— Infelizmente pode levar a um comprometimento desse cuidado.

— Uhum. Então, eu acho que o cuidar não 100% de de dedicação, mas significa nos momentos que você está presente, que seja de qualidade e que esse cuidado seja dividido sempre que possível. E a pessoa tem que saber que ela tem que contar e tem que montar uma rede de

— Tem muita culpa, né? Se eu não faço, se eu não assumo cuidado,

— Eu estou abandonando, estou deixando de cuidar. Então, a pessoa se anula, né? Ela se anula para cuidar do outro e muitas vezes ela acaba adoecendo

— Exatamente. Isso é uma outra questão. Então assim, vamos lá retomando. Cuidar bem não significa você anular a sua vida e estar 100% do tempo à disposição daquela pessoa que necessita de cuidados, né? Significa, gente, montar uma rede de apoio. Cuidar significa, na verdade, você organizar, você planejar, você delegar e você acompanhar.

— Uhum. Perfeito.

— E se você faz todo esse processo e você tem uma rede de apoio, o período que você está ali é um tempo de qualidade, é um tempo bem vivido, porque senão gera exaustão. E a exaustão pode levar o a família, mas principalmente o cuidador principal, ao adoecimento.

— Uhum. Não é incomum na minha vivência, na minha experiência, que já gira em torno de 25 anos, eu ter acompan acompanhado o falecimento do cuidador principal devido à exaustão. Quando a gente leva em consideração que às vezes você tá falando de um casal e de um casal de idosos, essa pessoa também precisa ser cuidada, ela também requer cuidado

— E ela também precisa ter outras atividades. Ela também precisa sair ao médico. Ela pode sair e manter sua relação de amizade. Ela pode ir à missa, enfim, a a anulação pode gerar a depressão e o e o adoecimento.

— E depois assim, a gente precisa entender que dividir e pedir ajuda

— Você tem que entender o seu,

— É uma forma de cuidar. Aliás, é muito importante porque para eu cuidar, eu também preciso estar bem.

— Cuidar. Uhum.

— E nessas decisões, os conflitos familiares, eles são muito comuns, né?

— E aí de avaliar a necessidade de cada idoso, até onde a família deve ir.

— Exatamente. Então vamos lá.

— Sozinha, né?

— Sem buscar a

— Primeiro que ninguém precisa ir sozinho a lugar algum, né? Porque assim, isso faz parte da constituição

— Da sociedade, gente. Sim. Ninguém faz nada sozinho.

— É, quando a gente vai parir um filho, a gente geralmente não pare sozinho.

— A gente tem suporte. Quando a gente leva aquele bebezinho para casa, a gente é cercado de suporte. Quando a gente, nosso filho chega na infância, a gente tem que sair para trabalhar, a gente tem suporte.

— Sim, na escola, né?

— Né? Na escola tem. Então assim, por que que é diferente a gente pensar que no processo do adoecimento, e aí eu vou focar um pouquinho paraa minha experiência, no processo do adoecimento de um idoso, a gente tem que assumir isso sozinho.

— Se no começo da nossa vida eu usei de a a minha mãe, a minha sogria, os irmãos, a cunhada, por que que agora eu não vou usar dos meus filhos? das minhas irmãs, dos irmãos do do meu ente querido. Então assim, é muito para evitar conflito, primeira coisa que a gente tem que fazer é externar

— Nossos medos, nossos anseios, nossas nos as nossas expectativas para que elas não se tornem irreais. Sim,

— Nós não temos que dar conta de de tudo sozinho. Feito isso, um diálogo franco e um diálogo não violento. E muitas vezes para isso a gente precisa do apoio de um profissional.

— Um profissional

— Intermediando é o papel muito de uma assistente social. Porque quando você me pergunta, mas Michela, afinal de contas, me defina o papel de uma assistente social. Ora, assistente social tem papéis variados, mas acho que um dos principais que ninguém tem dúvida é o papel que ela faz de mediação entre as partes. Ela é mediadora o tempo inteiro entre todas as partes envolvidas.

— E você também tem que dividir isso para não sobrecarregar, né? Porque não é uma família que você trabalha, não trabalha com uma família, tem várias com vários problemas, com várias histórias. Trabalhar em equipe multidisciplinar, que é a minha experiência hoje

— E que eu dou um valor imenso.

— Porque ninguém é dono da verdade, nem o familiar, nem um ou nem outro. Nenhum profissional sozinho. Mas quando você traz e discute, e o mais importante, gente, que aqui tem que ficar muito registrado, muito documentado, não pode ter a menor sombra de dúvida. O indivíduo adoecido, o indivíduo idoso, adoecido ou não adoecido, que necessite de suporte de quando a gente coloca ele no centro do cuidado, tudo fica mais fácil.

— Resultado é melhor.

— Como colocá-lo no centro do cuidado?

— É simples. É, você imagina um, põe uma cadeira, faz uma cadeira imaginária.

— Uhum. e põe um indivíduo ali.

— E você vai tomar decisões, não com base no que eu acho, no que eu penso, no que eu sinto. Primeiro, se você tem vínculo com aquele e você conhece a biografia dele e você leva em consideração o que é importante para ele,

— Você já tem meio caminho andado.

— Uhum. Porque os conflitos eles vão amenizando, porque não é o que eu sinto, o que eu penso, o que eu acho,

— É o que é bom para ele.

— E isso eu tô falando de colocar ele nesse centro quando ele não pode mais decisão por si. Eu tô falando de um caso em que a pessoa já não tem condições de tomada de decisão.

— Entretanto, quando ela tem, ela deve ser a protagonista. E uma pessoa que tá com comprometimento ela não perdeu o sujeito dela, ele está ali. Uhum.

— Então, se a gente levanta a biografia e se eu coloco em consideração os desejos dela, mesmo com as limitações, fica muito mais fácil. Você pode ter 10 filhos numa mesa tomando uma decisão. Se eu considerar o que é valor a história de vida do meu pai, eu vou conseguir desenhar mesmo em 10

— Que são expectativas diferentes, né?

— Melhor cuidado para ele.

— É porque 10 pessoas diferentes cada

— Não é o melhor para ele. O que que é valor para ele? E quando a gente faz isso, eu repito, 50% das questões estão

— Aí eu acho que é mais difícil você alinhar nas expectativas da família, por

— Faz a diferença,

— Faz a diferença,

— Porque ele vai trazer o tempo todo para o foco, né? Você entendeu? ele vai o que que é importante para ele. E aí você faz também toda essa quando você que eu eu o o meu trabalho, gente, ele é pautado. Eu uso três ferramentas importantíssimas, na verdade quatro, mas é que uma ela ela permeia tudo. Escuta ativa. Pronto. Sim.

— Eu vou conversar, eu vou perguntar, eu vou interagir. Sem dúvida nenhuma. Eu tenho que criar um espaço de confiança, de que seja um ambiente seguro. Então, é claro que eu vou conversar, mas o que vai tá atento o tempo inteiro é escuta ativa, tá?

— Aí eu vou usar técnica do serviço social, técnica de observação, o entorno, porque não é só o que eu tiro.

— Uhum. É o que eu vejo. Uhum.

— É uma análise global. a entrevista que é aberta e que não tem tempo para Então assim, se é uma história, um um processo muito complexo, a gente vai programar antes. Hoje nós vamos falar disso, na próxima encontro disso, no próximo.

— E o ideal é que todos os envolvidos estejam presentes entrevista. Então nós vamos nós vamos falar da história de vida, início, onde nasceu, como que foi. Então a gente marca e vai colher essa

— Neste momento, você vai com algum outro profissional, psicólogo,

— Geralmente sozinha. Geralmente sozinha.

— E aí e por que que eu faço tudo isso? Porque eu vou levantar a história de vida que nós achamos bonito dizer a biografia, que é a técnica biográfica, que essa eu fui aprender

— No mestrado.

— E que hoje é uma ferramenta valiosíssima para mim.

— Então, quando eu trago isso,

— Transformou mais ainda com profissional,

— Ela hoje é a base.

— Sim. Então eu pego, entendo a história daquele indivíduo, ali eu faço as minhas análises, o que que é valor, o que que são medos, expectativas, você entendeu? E aí eu vou ponderar isso paraa família e não só para a família, para a equipe técnica multidisciplinar.

— Uhum. Porque o cuidado ele também tem que estar estar centrado no paciente. O tanto se fala, um monte de hospitais de primeira linha de São Paulo fala do cuidado centrado no paciente. O cuidado centrado no paciente é isso,

— É você entender quem é aquele indivíduo, quais são seus valores

— E aí você transmite para toda a equipe de cuidado que vai desenhar o cuidado personalizado. E hoje, você falou, né, dos hospitais de primeira linha que t esse discurso, que tem esse trabalho. E na rede pública isso também funciona?

— Então, eu vou ficar devendo porque, infelizmente a gente chega num momento da nossa carreira que você tem que decidir, você vai afunilando. Então, hoje a minha experiência ela acontece

— No segmento de saúde privada.

— Sim. E eu tenho pouca experiência da saúde pública, mas eu acredito que também aconteça.

— Tem serviço social?

— Isso não é um papel só do serviço social. Tem o psicólogo, o médico,

— Assim, eu acho que existem três profissionais que fazem esse trabalho com desenvoltura, habilidade técnica, porque aqui não tem achismo, gente.

— Uhum. Isso aqui é trabalho, é muito estudo, é análise. o psicólogo, sem dúvida nenhuma, né? como que ele vai tratar sem conhecer históricem aquele indivíduo, usando as mas tem um psic, tem um profissional de que eu dou um valor imenso e eu vou aproveitar essa oportunidade porque o mercado ainda desconhece esse porque é uma é uma profissão nova e é uma profissão que vai crescer com o processo de envelhecimento da população, principalmente aqui no Brasil, que é o gerontólogo. Isso. Uhum. Este profissional, ele eu eu valorizo demais, trabalho com uma equipe de gerontólogas que são maravilhosas e que elas dão a base, que é o seguinte, ele tanto entende do ponto de vista biológico, porque tá na formação dele, mas ele entende do ponto de vista Uhum.

Então, gente, o gerontólogo não aplica só as escalas,

— Ele aplica, interpreta e faz uma análise pro indivíduo e pra família, mas ele vai muito além e ele pode fazer todo esse trabalho do levantamento biográfico e do planejamento de cuidado personalizado para aquele indivíduo. Mas aí ele seria o ponto focal junto com todo junto com toda a equipe. Eu acho que

— Mas ele ia ser o mediador.

— Ele pode ser o grande mediador. E o assistente social, sem dúvida, também faz isso brilhantemente.

— Mas é que assim,

— Todo mundo conhece o que o assistente social faz, todo mundo conhece o psic o que o psicólogo faz,

— Mas o gerontólogo, ele tem um papel importantíssimo na equipe multidisciplinar. Uhum.

— Então, aproveitando aqui, fazendo a essa profissão.

— Sim, com certeza, com certeza. Não é importante você falar dessa sua experiência no privado, dessa possibilidade que há na no Sistema Único de Saúde

— Para que o quem hoje se faz sentido todo esse episódio possa ter ciência com procurar. Não. Ele depois assim, quem buscar, gente. É, e quando não tem

— Vamos voltar no protagonismo.

— Não tem, a gente tem que começar a

— É, exatamente.

— E cobrar de daqueles que nos assistem.

— Você entendeu? Ah, não tem. Mas por que que não tem?

— É, é.

— Porque assim, as mudanças,

— Porque eles conhecem, né? A gente tá aqui o crescimento e a ampliação, ela se dá pelos movimentos sociais.

— Sim. Sim,

— É histórico isso.

— Uhum. Uhum.

— Você entendeu? Então assim, só que para isso eu tenho que saber e por isso que nós estamos aqui. Nosso papel

— Levar informação,

— Levar a informação

— Das possibilidades e

— A informação correta, a informação sem fake news.

— Você entendeu? e estimular a sociedade a buscar o que é melhor para ela. Uhum. E eu estou dizendo que no processo de toda vez que este indivíduo está sob o cuidado de uma equipe multidisciplinar formada em gerontogeriatria, dentro dessa equipe, tendo o médico geriatra, que faz toda a diferença, ele começa com ele, mas tendo o gerontólogo e os demais profissionais com essa formação, faz toda a diferença no cuidado. E aí voltando, esse é o maior suporte que o indivíduo em processo de envelhecimento e a família possa

— Maravilha. Em que momento a busca pela ajuda profissional deixa de ser opção e passa a ser uma necessidade? No momento assim, a família vai olhar e vai falar: "Agora eu preciso de alguém para me Quando você não tá dando conta e você não é, é assim, você tem que entender o seu limite.

— A gente tem que fazer autorreflexão continuamente e dizer: "Eu vou até

— E quando o cuidar virou sofrimento

— E mais do que sofrimento,

— Buscar ajuda não é sinônimo de abandono,

— Não, não é sinônimo de abandono, não é sinônimo de fraqueza. É quando você entende que você tem limite. E entender que a gente tem limite faz parte do humano.

— Ninguém tem que ser herói.

— É tão difícil. Eu falo para mim onde já passei, né, por uma situação dessa.

— E eu achava que as pessoas precisavam me ver. Era obrigação delas me olharem e falarem: "Andréia precisa de ajuda". É,

— Mas eu nunca falei,

— A gente precisa pedir ajuda.

— Eu falava, eu na minha cabeça era assim, tá todo mundo vendo quanto eu tô

— E as pessoas só falavam: "Se precisar de ajuda, me chama". Eu falava: "Mas eu tô precisando." Mas eu não falava, eu falava para mim. E aí cada vez mais você vai sofrendo.

— Ex. Isso. Esse é um outro ponto focal do meu trabalho. E e aí é um trabalho muito com o familiar, porque geralmente a família deposita a responsabilidade do cuidado para um único indivíduo. Sim. E esse indivíduo se sente na obrigação

— De ser o responsável. Então, muito do meu trabalho é entrar neste processo e trabalhar este indivíduo em sofrimento para que ele externe e para que depois a gente faça uma divisão de tarefas.

— Acho que aí entra o medo do julgamento, né? vão me julgar desistindando. E não é isso. Isso é muito comum, gente. E eu tenho certeza que vocês vivem isso todos os dias.

— A responsabilidade que o cônjuge com o seu parceiro adoecido. E eu ouço desse cônjuge. A responsabilidade é minha. Eu não tenho que envolver meus filhos,

— Não é verdade?

— Tá. O seu filho pode

— E ao contrário também, né? A responsabilidade do meu pai, né? Bem, porque assim, às vezes, e aí também tem um outro mito que a gente tem que desmontar aqui, gente, às vezes você não, um filho, um outro, ele não, ele não vai estar presente 100% do tempo, mas ele pode estar presente de outra forma, ajudando financeiramente, contratando o cuidador ou com presenças esporádicas para que aquele familiar possa sair. tem ou levou um filho fica, o outro leva o pai para jantar, a mãe para ir no porque também é fácil. Aí ela não quer, eu insisto, não é

— Não é verdade.

— Uhum. Uhum.

— Não é verdade.

— Ele oferece já na resposta do não, né?

— Exatamente. E aí a pessoa se sente constrangida. Ele já trabalha tanto, ele já tem outros problemas. Gente, é a gente ter outros problemas não exime a gente de participar da nossa família.

— E todo mundo tem problemas. E às vezes, gente, a questão é somente uma escuta ativa.

— É você chegar e ouvir e não chegar, porque eu também ouço às vezes do filho, mas eu vou lá, a mamãe só reclama, não tá fácil para ela.

— Uhum. Sim. te colo

— Ouça. Uhum.

— Ouça. Acolha

— Com legitimidade.

— E outro papel que eu faço dificílimo e esse eu vivi na pele porque eu tive sogro e sogra super longevos e foi dificílimo entrar com a estrutura de cuidadores.

— Sim. O cuidador do meu sogro ficou um ano na casa até ele conseguir dar o primeiro banho no meu sogro.

— Mas tem mas quem dava o banho agora?

— O meu marido e o e o meu cunhado,

— E eles falavam: "Ele não vai conseguir". Então assim, foi um trabalho aqui do vínculo, né?

— Foi um trabalho enorme. E até que a gente terceirizou o cuidado. eu acho que o nosso modelo, cada família vai ter um modelo. Não existe modelo pronto, gente, não tem.

— O nosso modelo passou por várias sendo que o final, porque os dois tinham família, meu cunhado tinha filhos que tinham netos, ele tinha o direito de conviver com os netos. Então, assim, eles fizeram plantões semanais. Como que acontecia? Eles iam de manhã e ficavam até mais ou menos hora do almoço. Eles acompanhavam o banho, o café, interagiam, mas eles não. E e aí ganhou em qualidade.

— Porque eles estavam ficando exausto.

— Aí se precisava viajar tinha um final de semana livre.

— E não é matéria aqui da nossa do nosso podcast, mas só para vocês entenderem. A gente teve o nosso geriatra como um grande aliado. Nós estudamos, né, e eu apoiei muito a família nesse processo de levantar a biografia de ambos, o que era valor para E nós decidimos por cuidados paliativos e cuidados de fim de vida com finitude em casa,

— Claro? o suporte de uma empresa

— Né? Porque

— Acho que eu vou trazer uma fala que, se eu não me engano, é da da Dra. Ana Cláudia Arantes, da qual eu tenho profunda admiração, né?

— A Ana Cláudia Arantes Quintana, que a gente morre uma vez só.

— A gente tem que morrer direito, não dá para ter tragédia, não dá. Então assim, tem que ser profissionalizado,

— Tá? Concordo.

— Então é isso, é planejamento.

— Uhum. é apoio, é equipe. E aí as famílias têm que procurar ajuda quando precisam, tá bom?

— E a gente no nosso dia a dia, né, atendimento domiciliar, diariamente, em contato com as famílias, a gente ouve muitas perguntas, mas se eu não tiver aqui todo dia, toda hora, o tempo todo, eu vou estar abandonando

— De jeito

— Cuidar é tá estar presente

— Não? E a gente orienta, cuidar é o indivíduo, é planejar, é saber que o cuidado vai ser executado e no momento que você está junto, que seja momento de qualidade, de escuta, de troca, de de reconhecimento, de vivências, de lembranças, que seja leve,

— Sim, e de validação do papel de cada um, né? É meu pai. Eu sou filha, é minha mãe, eu sou filha, não sou o cuidador 100% do tempo.

— Examente. Não. E se possível contratar que contrate. Quando não possível divida entre o os familiares. Eu também vivi uma experiência do interior de São Paulo, família simples, humilde, com dois idosos super longevos. Os filhos se dividiam. Durante o dia tinha uma pessoa que era uma faz tudo e uma Uhum. cuidadora, a uma senhora acamada, então tinha que trocar fralda, auxiliar na alimentação e à noite eram três filhos, cada noite dormia um.

— E quando a resistência do idoso, elegendo somente um filho para cuidar,

— Mais uma vez você precisa de ajuda às vezes externa.

— Tá. Porque isso também dificulta profissional, né? o profissional, principalmente o assistente social, ele tem uma habilidade de sensibilidade, de ajudar esse idoso e sensibilizá-lo da importância desse rodízio. Então a gente alega, olha, a pessoa, o filho que você gosta, ele também pode adoecer ou ele tem que ter, então você faz uma sensibil, gente, tudo está na base de um diálogo não violento, de uma comunicação ativa, de você achar argumentos sólidos. Olha, foram poucas as vezes na minha carreira que eu não tive sucesso. Foram poucas. Claro, ninguém é perfeito. Às vezes a gente vai mudando a rota porque você desenha de um jeito. Quando você chega toma um outro caminho, mas sempre a gente acha uma

— Então, vou te fazer uma pergunta. A gente tá falando aqui de famílias com filhos, muitos filhos. Eu, por exemplo, sou filha única. O o núcleo mais próximo que se afasta

— Não se sente responsável por isso. Como que a gente faz nessas situações?

— É, não é simples. Essa essa parte é extremamente difícil. O filho único e a ausência do e a ausência do filho tem sido nosso grande desafio. Desafio com o filho único, ele receber suporte pra tomada de decisão.

— Certo. OK. Então aí eu vou dizer o que eu falo muito, porque assim, eu atuo muito fortemente com uma população 80 Mas eu quero falar e tô usando essa oportunidade para falar para 60 a mais.

— Que é assim,

— Ainda bem que eu não tô lá

— Planeja. É, eu tô chegando, gente,

— Para planejar envelhe.

— Faço, eu tô desenhando o meu processo de

— Muito importante. Isso.

— Muito importante. Então, tudo que eu faço, eu uso para mim. Não é um discurso descolado de uma prática, não. Então, vamos lá. Eu sou mãe do filho único, tá? Então, vamos lá. Primeiro a gente tem que discutir sobre e finitude.

— Não tem como. Como que a gente discute? Na mesa, no café da manhã, na sala de jantar, na mesa do bar com os amigos. E aí a gente vai refletindo o que que eu quero para mim. E com base na minha história de vida, eu tomo essa decisão. Se eu tomar essa decisão e eu documentar,

— Eu tô falando de diretiva antecipada de vontade e testamento vital.

— 50% do problema tá resolvido também. Porque essa responsabilidade, Monique, é

— Testemunha com testemunhas.

— Contrata advogado, conversa com o seu médico. É um processo também, não é? É, nós vamos falar disso também, 50% do problema, porque hora que você tiver que tomar as decisões, já está

— O teu papel vai ser de planejar, porque essa tomada de decisão sozinha, ela é muito difícil,

— Quando não foi externado o que eu quero, o que eu penso, que eu sinto. Porque é do humano eu pensar o que seria bom para

— É. Aí volto por um indivíduo no centro do cuidado.

— Então essa é a questão. E para o indivíduo ou o casal sem filho, aí eu não tenho sombra de dúvida dessa E aí entra o meu desafio de sensibilizar essas pessoas para documentar, para deixar testamento, para deixar tudo muito documentado. E eu tenho uma outra coisa que eu gostaria de aproveitar e trazer aqui, que é a pessoa em processo de envelhecimento, adoecimento e perda do cognitivo. Então, vamos falar das doenças neurodegenerativas, dentre elas a que mais acomete os indivíduos, que é o Alzheimer. Nós estamos falando de uma doença né? leve, moderado, severo.

— Uhum. Sim.

— A gente tem que deixar tudo documentado. E aí a gente tem a seguinte, no começo aí todo mundo fala: "Ah, tem que, vamos esclarecer, tem que interditar primeiro." Não existe mais esse termo. O nome é

— Não existe.

— É nome é curatela.

— Isso é curatela. Tá? Então, o indivíduo vai ser curatelado.

— A ação é uma ação de curatela. O indivíduo vai ser curatelado e vai ter um curador,

— Curador. Você vai prestar contas de tudo, de todos os gastos para o Ministério Público. É muito sério, é uma responsabilidade gigantesca.

— Tem casos também que o Ministério Público ele elege uma pessoa que não é da família. quando não tem

— Ou quando há conflitme.

— Exatamente. Só que aí, então vamos lá, vamos primeiro falar da curatela. Se você aí tem um passo antes da curatela que você pode tomar,

— Chama decisão apoiada. Às vezes nem advogado, sabem? Eu tive semana passada uma reunião com um advogado, exatamente de um casal, super longevos, sem filhos, sem parentes e apresentei a opção da decisão apoiada, por eles estão num processo de envelhecimento com começo de perda cognitiva. Então eu falei, não precisa sofrer um processo de curatela. E a decisão apoiada, ele escolhe quem vai apoiar, que pode ser da família ou não.

— Neste momento tem uma avaliação

— Pode ter, você pode lançar mão de tudo que você tem

— E da decisão apoiada no futuro, esse indivíduo que é o o auxiliar na, né, na tomada de decisão, ele pode virar o

— Por que que seria interessante você já eleger essa pessoa? Porque muitos dos idosos, não existe certo ou errado, tá gente?

— Mas muitos escolhem envelhecer nos seus lares.

— Desde que se tenha estrutura, tá tudo

— Estrutura. E se você escolher essa pessoa e você fizer sua diretiva antecipada de vontade e você tem recurso paraa manutenção de tudo isso, esse indivíduo que é seu apoiador na decisão apoiada num futuro, na sua ausência do cognitivo, ele se torna seu curador, ele pode respeitar tudo isso. Quando nada disso é feito e o indivíduo é acometido por uma doença que pode ser muito rápida e se tornar severa, e ele tem que sofrer uma ação do Estado. E aí entra o Ministério Público que elege um curador, porque nós estamos falando de uma pessoa que não tem

— Ah, tá. É nesse caso, né? E ele pode tomar decisões, ele não conhece o histórico de ele pode tomar decisões que não são as decisões de assim, uma coisa é decisão de segurança do cuidado do idoso e ele vai tomar uma segurança de cuidado do idoso, cuidado dos bens, porque ele também está respondendo.

— Mas ele pode escolher, por exemplo, quando aquele não era o desejo daquele

— Por uma questão de segurança. Então vocês entenderam como é

— E essa pessoa também tem que tratar a culpa, né?

— Exatamente. Como é sensível e como é nós conversarmos ao longo da vida e ao conversar você reflete e depois você documenta.

— É isso.

— Porque não adianta só conversar, né? Se você não documenta, você não conversou. Se você tem uma pessoa que sabe tudo E vai, só que você pode ter um terceiro

— Quando você documentou, acabou.

— Não, não tem questionamento.

— Sim, sim. Eu vivi isso e deu certo.

— Sabe aquela máxima contra fatos no argumento? Tá documentado.

— Uhum. E aí vai ser respeitado.

— Ex. Por isso que que o conhecimento de todo esse processo de entender que

— Todo mundo está caminhando pro para

— É inevitável, né? Sermos longevos

— É muito grande.

— É muito grande.

— Nós viramos isso em 90 anos, enquanto a Europa levou 180. Então assim, é para

— Rápido. Exato.

— Né? A população brasileira ela vira a pirâmide em 2050.

— Gente, 25 anos,

— Né? Na na na história

— É nada. Uhum. Passa.

— A decisão é agora,

— Né? E daqui 20 anos, 25 anos, somos nós.

— Somos nós.

— Somos nós.

— E nunca, né, né? Para você decidir

— Da melhor forma.

— Exatamente. Maravilha. Vieram algumas perguntas, Michela, de algumas pessoas, né, que se sentiram envolvidas pelo tema. Então, vou falar algumas perguntas e pode ser que já passamos, tivemos aí

— A gente complementa, né?

— É, já passamos pela pelos tópicos, mas vamos complementar. Vou pegar o meu óculos aqui porque eu não tô enxergando. Aí vem uma pergunta assim: "Meus irmãos não ajudam, mas criticam minhas decisões. Como lidar? Conversa franca, diálogo,

— Traz para conhecer o dia a dia,

— A rotina, o cotidiano.

— Você entendeu?

— Geralmente essa pessoa que tá perguntando é ela que tá no sofrimento,

— É, exatamente.

— É ela que tá pedindo ajuda.

— Ela que tá pedindo ajuda.

— Não, ela que adoece.

— Vem conhecer,

— Tá no papel da culpa, no medo do

— Você entendeu? Então assim, e também tem essa essa coisa, né, do do ato heróico. Eu tenho, não. Ah,

— Você não tem.

— Ninguém tem obrigação de fazer tudo

— Você não é forte o tempo inteiro, né?

— A gente ninguém. Você começou falando, né, da sociedade, das mudanças da sociedade e a gente tem que entender que hoje mudou.

— Antigamente as mulheres não tinham representatividade no mercado de trabalho, mas eram era dentro de casa. A mulher era assumida. Ela assumia. Hoje a mulher tá no mercado de trabalho.

— Muitas vezes só ela, né?

— Muitas vezes ela é o arrimo de família.

— A gente tem que quebrar paradigmas.

— A sociedade mudou.

— Você entendeu?

— O cuidar, vamos pegar o cuidar desde o Cuidar um do outro. O nascimento é de todo mundo. O cuidar não é da mulher.

— Sim. É isso. Tem que,

— Eu acho que está mudando, mas não suficiente ainda. Sabe cuidar. Ai, mas

— Ninguém nasceu sabendo nada.

— E nós vamos aprender até o último momento de nossas vidas. Nós somos seres racionais com habilidade de aprendizado. Uhum. Sim.

— Não consigo, tenho dificuldade. Aí é outra coisa. Então vamos dividir as

— Eu também tive mãe doente. Eu também tive mãe que faleceu muito jovem. Eu não conseguia ficar no hospital naquela época, mas eu tinha uma irmã que ficava, a gente dividia. Eu tinha irmã pequena em casa. Eu fiquei em casa cuidando da casa, da comida, das crianças. E eu tinha uma irmã que tinha muito mais para ir pro hospital, mas a gente nem tinha idade para isso. Mas naquele momento a gente dividiu, porque assim, a nossa cuidadora principal adoeceu, ficou de cama e não voltou.

— Nós tivemos que achar uma forma,

— Aprender, aprender na prática. na prática e dividimos as tarefas conforme a habilidade de cada uma.

— Uhum. E deu certo.

— E deu certo. Tá todo mundo criado, tá todo mundo aí casado com seus filhos.

— Sobrevive, sobrevive. É só determinar quem faz o que e dá tudo certo. Tem uma outra pergunta que também já falamos. É errado discordar da vontade do meu pai quando envolve risco? Nossa. dificílimo. Gente, olha, eu vou dizer uma coisa aqui. Eu já errei muito e é errando que a gente Eu eu não tenho mais pai nem mãe, tá? E durante muito tempo eu tive um Não tem que ter vontade, tem que fazer. sempre olhando o foco do que na minha ótica era melhor

— Para o meu pai e para os idosos do programa que eu acompanhei durante anos. Não tem que fazer. Quando eu fui pra academia, eu vi que isso não é verdade. Então assim, a gente pode discordar e a gente tem que tentar negociar e a gente tem que tentar com argumentos convencer. Mas a gente tem que respeitar porque é a decisão de cada um. E aí eu, gente, eu começo falando isso para as famílias. Eu vou contar aqui o que que eu começo Então, tá, ele não quer tomar banho mais, ele cheira mal, blá blá blá. Eu falo: "Tá bom, então vamos lá".

— Engraçado que essa é a primeira queixa, Se você hoje, adulto, decidir, hoje eu não vou tomar banho, eu vou dormir sem tomar banho,

— Tá tudo bem, né? Alguém te obriga a fiar

— E a gente toma essas decisões. Toma. Às vezes você toma.

— Meu, você, você teve um dia

— Exausto, você chega em casa, fala: "Não quero nem comer, eu quero deitar, eu quero dormir". Quem te obriga? A gente obriga por o nosso filho tomar banho, acho que até uns 11 anos, talvez. Aí depois eles têm umas fases que eles enganam, não toma banho, depois eles voltam a tomar banho. É uma decisão, porque às vezes o banho cansa, é um exercício.

— Então às vezes são acordos, troca, às vezes não tomar de manhã, porque ele sempre tomou banho à noite. Agora eu quero que ele toma de manhã porque é o melhor horário para mim, melhor

— São acordos. E às vezes pula um banho, gente, não tem certo, não tem errado. E a gente tem que respeitar a vontade dele. Agora, claro, ele se colocou em risco. Argumentação.

— Do mesmo jeito que tem que ser com os nossos filhos.

— Sim. Sim.

— Quem já teve filho adolescente, a gente obriga adolescente fazer alguma coisa?

— A gente tenta argumentar e justificar risco, oportunidade e responsabilidade.

— Mas é isso,

— Eles nos enganam, né?

— É [risadas]

— Como conversar com a família sem gerar assim, partindo do princípio, não existe verdade absoluta. Não existe centro do cuidado, é para aquele indivíduo. Vamos ouvir cada um, vamos ponderar e aí a importância de um mediador e vamos tomar a decisão que é melhor para o centro do cuidado que é aquele indivíduo, o que é que melhor para ele.

— O importante é todo mundo ter consciência que a decisão do cuidado envolve decisões difíceis.

— E exatamente conversas difíceis. E as conversas difíceis elas têm que acontecer. Jogar conversas difíceis para debaixo do tapete problema só vai aumentar. é a bomba para estourar o conflito

— E os rompimentos,

— O que não é bom para ninguém, principalmente pro nosso ente querido. Claro, uma das maiores tristezas e o que eu mais ouço dos idosos é a dor que eles pelo rompimento entre os filhos fam

— Por decisões de sem consenso.

— E aí eles assumem a culpa, né? Eu sou culpado. Eu sou culpado

— Por mim, pelo meu filho. Não sou falar com outro.

— Nós escutamos isso quase todos os dias também. Famílias que estão rompidas e o idoso em sofrimento.

— Em sofrimento. E e não tem como a gente se envolver, né?

— É, não tem como. A gente

— Nós como parte externa das

— Porque nós estamos dentro da casa.

— Sim, né?

— Como que a gente não vai se envolver?

— A gente faz parte. E tem aquele filho também que eu já passei numa situação dessa, não com a minha família, mas atendendo pacientes, que o filho é um jeito de cuidar dele. Ele falou para mim: "Andréia, eu dou tudo pra minha mãe, tudo que você me pedir eu dou. Não me cobra a presença. História de vida dele. Pode, você não pode, gente, não pode entrar no Mas aí a gente tem que esclarecer a responsabilidade legal. É exato. Não, isso era muito

— Você tem responsabilidade legal. Isso

— É ninguém consegue cobrar amor, carinho, respeito quando isso também não foi construído. Exato. Sim.

— Porque também a gente tem que levar aqui em consideração, não é? Porque a pessoa ficou doente, ficou velhinha, que ela ficou boazinha, exatamente. Então o que a gente pode comprar é a cobrar é a responsabilidade do cuidado.

— Não a presença, não o amor, não o afeto.

— Isso. Exatamente assim que a gente,

— Eu já atendi filha nessa condição com mãe num passado que ela falou, ela sabia que eu era abusada, ela nunca fez nada, né? Não me

— Ela sabia.

— Então assim, gente, como que você pede

— Aí você dá o seu melhor, né? Nós como profissionais, a gente põe o cuidado notifica. Claro, é responsabilidade. A família tem que estar no centro do cuidado, gente.

— Não existe isenção. Ela pode não estar

— Mas a responsabilidade é dela e a tomada de decisão é dela. Não dá para terceirizar isso.

— Você entendeu? Mas a gente também tem que respeitar a história de vida de cada família. Uhum. É isso. O

— Nosso papel não é julgar de nossa, isso uma assistente social

— Faz como ninguém. É o papel dela. Eu não, a gente não tô ali para julgar,

— Eu tô ali para compreender e entender qual a melhor forma de desenhar aquele

— Dentro daquele contexto.

— Dentro daquele contexto, respeitando

— História de vida e valores de cada um. No nosso curso de cuidador, a gente fala muito isso pros cuidadores.

— Meu papel não é julgar.

— Meu papel não é julgar. Mesmo que aquilo esteja em conflito com os meus valores. O que nós, como profissionais da saúde podemos fazer é abrir mão, falar: "Não consigo". Porque também nós temos limite.

— Sim. Sim. Nós acontecemos isso também. A gente não pode também não considerar os nossos valores e nós entrarmos em sofrimento e nós nos adoecermos. Isso também não pode.

— O mesmo, o que vale pra família vale para nós.

— Você abre mão do caso.

— Isso. Isso já aconteceu. Isso já aconteceu. E tem que ser bom para todos os lados, né? Senão mais per

— Não, não é perene. E o o prejudicado é o paciente, é o paciente fica no meio do conflito, né? Meio do conflito.

— E como saber a hora, como a família vai perceber o melhor momento de contratar um cuidador, uma pessoa externa que vai entrar na casa dele? Gente, eu, nossa, é outra coisa que eu cuido disso diariamente. Primeiro, não espere você ter aquela necessidade vital. Introduza, eu sei que tem questões mas comece a introduzir a pessoa como acompanhante. Olha, eu preciso de ajuda. Essa pessoa vai nos ajudar aí no médico, vai nos ajudar aí no parque, vai nos ajudar a fazer compra. Porque a partir do momento que você acostuma ter alguém, o próximo passo é você acostumar a

— As tarefas,

— Não se sentir sobrecarregada.

— Para mim é o primeiro passo.

— Começando neste passo é um período

— Se horas por dia, o horário do banho, horário de fazer a feira, algumas vezes exatamente aos finais de semana. enfim,

— Nos dias de médico,

— Porque a gente tem que permitir, né, a adaptação a essa nova realidade. E aí, com o passar do tempo, você vai progredindo com horas, até que pode chegar o momento para algumas famílias da gente ter a necessidade de 24 horas. Uhum. Porque o cuidado se tornou um cuidado assim né? Muitas vezes de paciente acamado, de paciente com sonda, de paciente que precisa ser aspirado, de paciente,

— A complexidade. E

— Volto a falar, nós somos humanos, tem coisas que a gente não consegue fazer, então a gente terceiriza. Isso não é gente, família, isso não é abandono.

— Cuidado com responsabilidade,

— Cuidado responsável.

— Você tá no comando. Eu falo muito isso às vezes pro cônjuge. Você tá no

— Sim. Muitas vezes eles protelam com medo de perder perder o controle da situação

— Também. De perder o controle da situação. Mas alguém vai chegar também tem ciúmes, tá gente? ciúme do cônjuge E aí entra a habilidade, né, que eu acho que vocês fazem muito bem, que é a gente entender o perfil da família e colocar o perfil do cuidador que não faça o conflito

— Dentro do ambiente familiar, se vai ser homem, se vai ser mulher, a idade, o per

— Para que ele não ofereça esse esse conflito para que ele não seja o gerador do conflito. Sim.

— Né? Então também tem toda essa habilidade que uma empresa responsável tem que ter.

— É, nós fazemos isso. não é

— Logo na primeira a gente entrevista, tem todo um critério para traçar perfil de profissional, perfil desse cliente, expectativas da família, né? que não vai ser perito, que vai ter problemas. É,

— Mas que nós vamos ao longo, porque é assim, isso isso era o que eu mais fazia. Eu fiz muitas abordagens. Eu, eu me especializei depois da especialização em home care, eu me especializei em desospitalização hospitalar, outro episódio para falar aqui. [risadas] E aí tive uma experiência vasta. Então assim, eu ia lá falar da importância da desospitalização, de ir pra home care. Então assim, muitas vezes o o ente querido entrou andando e saiu acamado.

— Então vai ter gente, vai. Então primeira coisa que eu falava, o home care é muito bom pro indivíduo, pro centro, não necessariamente pra família. Então assim,

— Vocês amam muito essa pessoa, vocês querem levá-la para casa. Porque vai mudar a rotina.

— E não vai dar tudo certo da primeira Existe todo um processo de adaptação. Então eu nunca vendi o que a gente não ia entregar.

— Porque não é verdade.

— É o que a gente faz.

— E é isso. É.

— E aí o que que eu vendia? A gente vai

— E o mais rápido possível.

— Sim. você não vai estar sozinho, não vai ser abandonado e a gente vai fazer todos os ajustes necessários. E isso, gente, é fundamental, essa clareza e e não desenhar um mundo de de que não é verdadeiro.

— Não é verdadeiro, mas com o tempo as famílias se adaptam

— E percebe melhor, né? E o cuidado segue, é o processo de confiança.

— A mesma coisa acontece com cuidadores. E outra coisa, né, que o que é uma coisa que eu tinha que explicar e eu tenho, eu falo que é só apertar um gravador que sai sozinho. A diferença de cuidado especializado e cuidado especial. Cuidado especializado feito pro profissional de saúde, geralmente por um técnico de enfermagem, porque precisa estar sob o comando de um enfermeiro, um médico, uma equipe técnica.

— Cuidados especiais é de cuidador.

— Uhum. Hum. tem que treinar o cuidador para aquele indivíduo, para aquele paciente. Tem, tem que treinar, mas é diferente de cuidado especializado. Então, é outra confusão que as famílias fazem. Até hoje eu sou muito consultada, você entendeu? E explico muito pras famílias quando a é da contratação de um home care, seja ele custeado pelo seguro saúde ou pela e que muitas vezes você ter um home care não invalida a necessidade de você ter o

— Exatamente. Às vezes tem as são distintas e complementares, um precisa do outro.

— Precisa do outro. Porque quando um é muito técnico, as atividades do cuidador não são realizadas pelo técnico. E às vezes a família confunde.

— Examente. Sim.

— E aí não? E a família confunde porque ela não sabe essa diferença. É, ela não entende. Por isso que precisamos.

— É outra responsabilidade nossa explicar.

— Explicar. Exatamente. Porque tem um momento que o idoso, o paciente precisa só de um cuidador de idose.

— Ah, mas ele tá indo pra casa com uma Não, não é, não é, não é técnico de

— É uma pessoa,

— Uma pessoa, um cuidador familiar treinado. Um cuidador formal, contratado, lhe dá conta de

— Dá um cuidador bemado, bem formado, vai

— Até de de apresentar pra família o papel do cuidador dentro da casa.

— Né? Que muitas vezes é confundido também. Outra confusão, fica sentado e não faz nada, não lava uma louça, não. Ele está lá para acompanhar, cuidar do paciente, cuidar das coisinhas do paciente, esquentar a comida do paciente, não é da casa.

— Se ele deixar o paciente para cuidar da casa, ele vai ser negligente. Nós temos risco de queda, engasgo.

— Sim. Uhum.

— Nem e outras coisas.

— Entendeu? Então, é, é o nosso papel, ele é desafiador e desafiador diariamente.

— Para que o cuidado aconteça de forma Ele é ele é um desafio diário.

— É esse essa diferença entre as categorias. Isso é muito importante a gente falar, explicar o que compete a cada profissional, porque isso nós vivemos isso diariamente. Os conflitos de informação, as expectativas são altas demais, quando na verdade eu só preciso de um técnico ou eu só preciso de um cuidador. E na implantação de um serviço, eu demoro aí nós, né, demoramos 30 dias para poder alinhar a equipe, né, versus expectativas da da cliente e segurar os pratinhos para que esse paciente seja

— Sempre bem assistido, né, onde esses conflitos estão sendo gerados, a gente tá ali tentando ajeitar e o paciente tá sendo bem cuidado diante de todo esse conflito. Muitas vezes o conflito não é nem do paciente, nem do cuidador, é externo. É externo. É um filho que quer de um jeito, é o outro, é um que tá

— E aí volto o centro do cuidado, porque às vezes o paciente tá super adaptado e

— Com aquele cuidador e é um filho que não gostou de alguma coisa.

— É.

— E aí, vamos lá. O que a gente mais ouve, a gente contrata pelo currículo e a gente demite pelo comportamento.

— Exato. Então assim, diariamente.

— Se você tem um bom cuidador, né, a questão de caráter, de valores, existe uma falha da parte de cuidado, a gente treina, gente.

— Não dá para treinar caráter,

— Mas dá para treinar a parte da técnica. É exatamente isso.

— Isso a gente faz na empresa.

— E eu acho que vocês também devem receber. Outra coisa que eu falo muito pras famílias. Às vezes a família tem um colaborador da casa que tá há muitos

— Uhum. Tem bastante.

— Se quer que ele se torne o cuidador, sem problema. Contrata a empresa. Ela treina. Uhum.

— Ela treina e ele vai ser o cuidador. O

— Contrato curso para ele. Ele nós temos nós aprimoramos. É isso. Porque o vínculo já tá estabelecido.

— Uhum. É isso.

— É muito mais fácil.

— É, a gente tem que buscar facilitar e não complicar o processo. A gente faz o inverso, né? É. E sempre pensando no melhor pro paciente.

— Toda vez que você coloca o paciente no centro do cuidado, muitas das respostas já estão resolvidas.

— Se você

— De início, toda vez que você citou aqui o centro, coloque o paciente no centro, né, do cuidado, eu já imagino a cadeirinha ali no meio.

— É. Eu imagino a cadeirinha. Eu ponho a

— Eu já tô imaginando a cadeirinha o Porque assim, eu estimulo mesmo com questões cognitivas

— Que ele externe

— Valores, medos, ansios e vou captando e construindo

— Uhum. através da fala dele o que eu entendi que seria melhor para ele. E aí trago isso para equipe validando

— E para a família.

— E não é incomum fazer as visitas posteriores e passar isso pro cuidador que tá lá lá em loco, para ter certeza que tudo isso chegou

— Porque ele também faz parte da equipe de

— Sim. E a gente não pode ignorá-lo porque ele tem um papel

— Ele que tá.

— E se nós não fizermos vínculo com ele, a gente pode comer bola feia

— E perder a oportunidade de atuar numa do nosso paciente, porque eu não soube vincular o meu cuidador, porque ele não se sentiu respeitado, ele não se sentiu parte da equipe

— Quando ele tem um papel importantíssimo. Sim. Ele que tá lá o tempo todo.

— E ele que leva as informações, né, para médico, pra equipe multi, pra família. Ele é um conhece aquele indivíduo. É aquela coisa, gente, vamos pegar uma coisa clássica aqui.

— O indivíduo amanheceu prostradinho. Se ele conhece o paciente, tá prostrado. Se ele Vamos no xixi

— Amarelo, com odor forte. Uhum. Fica.

— Pronto, gente. Pode ligar pra equipe técnica. Uhum.

— Nós temos uma grande chance de tá mediante uma infecção de trato urinário, coisa que mata paciente idoso,

— Que muitas vezes não, a infecção não não vem com uma febre, né?

— Vem com uma febre. No idoso não vem com febre, não vem com febre. É exato. É

— Ele não vai reclamar. Se se nós temos um cuidador atento que se sente parte, ele vai sinalizar as alterações,

— Do paciente. E nós vamos, enquanto equipe [limpando a garganta] técnica, eu tô falando agora,

— Precocemente e reverter e na maioria das vezes em casa

— Sem remover.

— Sem remover.

— Uhum. nós temos uma equipe que atua dessa forma. Então, os profissionais treinados e já acostumados, né, com a vivência por longo tempo dentro da residência, já aciona empresa, a gente aciona, né, se é seguro saúde, a remoção ou médico e aí a gente consegue atuar com mais rapidez também.

— Até porque cada internação para um idoso

— É um degraue. Exatamente.

— Na verdade, falo que ele desce dois, né, e quando ele sai do hospital só sobe um.

— É. E às vezes não sobe, né? né? Muito bem, Michela. Se uma família estivesse nos ouvindo agora, qual a mensagem que você deixaria para ela? o processo de envelhecimento é de todos nós. Ele não é só de seu pai, ele não é só da sua mãe, ele não é só seu, tá? Então, estude, planeje e assuma o protagonismo deste processo.

— Depois, tá precisando, peça ajuda.

— Uhum. Você [suspirando] não está sozinho. Você pode e merece receber todo o apoio, seja dos seus familiares, seja de uma equipe técnica, seja de uma equipe de cuidadores, seja da sua comunidade, seja da sua cidade, do seu estado

— Ou até da sua igreja, né? A igreja também ajuda.

— A igreja, exatamente,

— A igreja ajuda muito.

— Entendeu? Eu tenho, hoje vou, por exemplo, me encontrar com uma amiga

— Que trabalha com o processo, com a longevidade. Ela tá na na na pastoral do Tudo que eu tô fazendo aqui, ela ela ela replica lá. Porque é o que eu falei, para nós, isso virou uma missão.

— Não é uma escolha,

— Né? Porque cada idoso que eu consigo tocar ou cada indivíduo em processo de envelhecimento que eu consigo tocar, que consegue mudar a sua forma e entender que ele tem que ser protagonista, que ele pode desenhar o seu processo e que ele pode receber valeu a minha existência. Com certeza.

— É o que eu costumo dizer, né? É o envelhecer com utilidade. Porque

— Falando da da mudança da sociedade, antigamente falava assim: "Ai, não, ele tá é idoso, tá cansado, deixa lá". Não, não é isso, gente. Pelo contrário. Então, assim, ó, para você,

— Se você tem plano de saúde, seguradora, procura a sua seguradora, vê se tem algum programa de apoio para você, porque assim, primeiro a responsabilidade é sua de envelhecer saudável. Não dá para terceirizar pro outro, nem pro doutor. Acabou com aquela coisa, aí o doutor que sabe não.

— É você e o doutor vocês vão desenhar junto. Sim.

— Aí procura o seu seguro plano de saúde. Quem não tem vai pro Sistema Único de Saúde que tem programas lindíssimos também, você entendeu? De acompanhamento, de suporte. Ah, tô com conflito familiar. procura a estrutura do SUS ou do do de serviço social, CRAS CR mesmo na no seu posto de saúde, peça ajuda. É isso. Você não precisa estar sozinho nesse processo.

— Buscar ajuda é reconhecer seu limite.

— É reconhecer e manter nossa rede de apoio é fundamental,

— Né? A gente precisa, como precisamos ao longo da vida, de rede de apoio e de na idade do envelhecimento, não é diferente. Mantenha sua rede de amigos, porque quem tem amigos não envelhece só.

— Perfeito. Quero agradecer a sua presença mais uma vez pelas informações tão importantes, pelos esclarecimentos,

— Reflexões, né?

— Reflexões, né? como

— Nós da área da saúde, né, eu, Monique, conseguimos aprender muito mais com você aqui hoje, levando um pouquinho, sairemos daqui diferente, né? Você deixou uma mensagem muito importante para nós e a você que nos ouviu até aqui, né? Agradeço também por por nos escutar. Acredito que deu para absorver várias várias coisas para que tenham um caminho, um caminho desenhado, um caminho certo para que os nossos idosos, para que nós sejamos cuidados da melhor forma possível

— E que você não está sozinho.

— É isso mesmo. Muito obrigada, gente. Foi um prazer

— E também, né, é uma troca

— E claro, a gente sai transformado, mas valeu a pena. Foi um prazer. Impactada. Ai, que bom. O objetivo foi cumprido.

— Foi foi cumprido.

— Espero que você também tenha ficado impactado e que tome decisão do seu futuro. Ela só pertence a você. E você [música] que ficou até aqui nessa conversa incrível e super rica e que é de São Paulo, a EPAD existe justamente para isso, oferecer cuidado profissional, humano e responsável para idosos, [música] respeitando cada história, cada família e cada

— Se você sente que precisa de apoio, que não precisa passar por tudo isso sozinho, nós estamos aqui para te ajudar com ajuda profissional e qualificada. Mas se você ou a sua família não está preparada [música] para receber um cuidador em casa e quer profissionalizar esse cuidado, a EPAD também tem o curso presencial de cuidadores de idosos em São Paulo e fica [música] ali pertinho do metrô Paraíso. Fale conosco nos contatos que estão aparecendo na tela ou na descrição desse episódio e saiba mais. Muito obrigada por ficar conosco até agora e se esse conteúdo fez sentido para você, se inscreve no canal, segue EPAD nas redes sociais e compartilha com alguém que também esteja vivendo isso. Nos vemos no próximo episódio.

Conteúdo informativo. Não substitui a avaliação médica individualizada.

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